Título: Argentina: inflação sim, desvalorização não
Autor: Oviedo, Jorge
Fonte: O Globo, 11/05/2010, Opinião, p. 6

A inesperada proibição do secretário de Comércio, Guillermo Moreno, de que a Argentina continue importando alimentos competitivos com a produção local não parece mais que o produto de outro fato inesperado: o agravamento do conflito com o sindicato trabalhista do setor de alimentos, que mantém paralisadas várias indústrias. A Federação de Trabalhadores da Indústria da Alimentação deu por rompidas as negociações e foi à greve. Os pedidos de aumentos salariais, segundo os empresários, alcançam a casa dos 44%. É uma loucura, oferecemos 26% em duas vezes, mas nem sequer aceitaram sentar para negociar. O Ministério do Trabalho não conseguiu atuar e os dirigentes sindicais parecem submetidos aos segmentos radicalizados, disse um executivo.

A surpresa não é pequena porque sindicatos habitualmente mais inflexíveis, como a União dos Operários Metalúrgicos (UOM), têm feito acordos de aumentos salariais com um máximo ligeiramente superior ao patamar de 26%. Ninguém esperava que fosse com o sindicato dos trabalhadores na indústria de alimentação o processo de atualização salarial mais conflitante da Argentina.

Vários executivos explicam que é limitada a possibilidade de transferir aos preços os aumentos de custos.

Nos alimentos de consumo popular isso teria o perverso efeito para os extratos mais pobres, com menor poder aquisitivo.

No outro extremo, com inflação e dólar quietos, muitos alimentos de produção nacional começam a aparecer nas gôndolas do comércio com preços similares aos dos importados.

Massas, azeites de oliva, pescados e mariscos de outros países já competem com vantagem nas gôndolas de produtos de melhor qualidade.

Dizem que a mensagem do secretário Moreno às empresas produtoras de alimentos foi: Dêem os aumentos para desativar o conflito, mantenham o máximo possível os preços dos produtos populares e subam tudo o que queiram nos outros.

Eu me ocupo de retirar a competição dos importados. Seria por essa razão que a proibição de vender importados, imposta aos supermercadistas, inclui só as categorias de produtos que têm uma alternativa de fornecimento na produção local.

Aparentemente, não haveria problemas com os que continuem vendendo, por exemplo, diferentes variedades de café, palmitos e delicatessen que na Argentina não se elaboram por diferentes limitações. Mas deveriam desaparecer os presuntos espanhóis, os azeites de oliva, as massas italianas e os queijos franceses.

A boa notícia é que o governo não pensa em desvalorizar o peso para manter a competitividade, porque teme a repercussão na taxa de inflação, disse-me um outro empresário.

Ainda há quem pense que o Executivo argentino quer por todos os meios neutralizar possíveis escaladas de grupos de esquerda como as que aconteceram recentemente quando os empregados da indústria Kraft coordenaram ações com setores da Federação de Universitários de Buenos Aires (Fuba) e, inclusive, apareceram nas assembleias dos estudantes que haviam tomado o Colégio Nacional. A decretação da greve na indústria de alimentação, ontem, coincidiu com um endurecimento de grupos ativos em outros setores.

JORGE OVIEDO é jornalista © La Nación/GDA