Título: Oportunidade ou miragem?
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Fonte: O Globo, 16/05/2010, Editorial, p. 6

Só se pode desejar boa sorte ao presidente Lula no esforço diplomático que ele desenvolve na direção do Irã. Mas não se pode esquecer que há riscos implícitos em tudo isso.

O presidente é um homem de bem com a vida, podendo exibir uma carreira política de notáveis sucessos. Daí, talvez, sua crença de que uma conversa olho no olho resolve qualquer problema. É a experiência que ele tem da política brasileira. Em política externa, as coisas costumam ser mais complicadas, sobretudo numa região como o Oriente Médio.

O presidente quer, através do que ele chama de mediação, afrouxar o anel que se fecha em torno do Irã a ameaça de sanções caso o país não adeque os seus projetos de energia nuclear às garantias de que se trata de um projeto pacífico. Como ele é um homem de sorte, pode até alcançar um resultado positivo. Mas, que tipo de resultado? O presidente da Rússia, que conhece bem a região, avaliou em 30% as chances de sucesso da mediação brasileira.

O presidente Lula, num arroubo de otimismo, diz que essa chance é de 9,99 em dez.

Quem estará com a razão? O risco evidente neste processo, como já foi assinalado pela imprensa internacional, é que o Irã esteja apenas aproveitando a movimentação brasileira para ganhar tempo, e poder dizer que não está sozinho quando resiste às pressões das lideranças ocidentais.

Nesse caso, o Brasil pode acabar aparecendo como inocente útil.

Há outros riscos. Um deles é a impressão de que o Brasil, de repente, quer ser uma pedra no sapato da diplomacia americana um contestador da liderança natural que os EUA exercem no quadro ocidental.

Já há bastante tempo o Brasil abandonou uma política que chegou a ser de alinhamento automático com os EUA. Conseguimos, nesse terreno, firmar posição como país que tem suas próprias ênfases. Mas, em política internacional, uma andorinha não faz verão. Uma coisa é abandonar o alinhamento automático.

Outra, bem diferente, é bater de frente com os EUA, por razões que podem ter um fundo ideológico (a velha esquerda, muito presente no Itamaraty de hoje) ou podem derivar do desejo imoderado do presidente Lula de firmar-se como ator importante no possa tirar de uma aproximação com o Irã não são nem a sombra do que podemos perder se optarmos por uma atitude de confronto face a Washington.

Ainda há outro risco: o de que o presidente Lula, bem à brasileira, misture fatores geopolíticos com arroubos afetivos. O presidente trata o seu colega do Irã como amigo. E assim chegamos à situação esdrúxula que é o Brasil distribuir afagos a regimes ou personalidades que não são, exatamente, cordatos. Acontece com a ditadura fidelista (e, nesse caso, a nostalgia ideológica é evidente). Acontece com o coronel Chávez, que trata a pancada os opositores.

E está acontecendo agora com um regime que massacra opositores, realiza eleições fraudulentas e tem posições programáticas como a eliminação do Estado judeu. Tudo isso pode comprometer, logo adiante, as pretensões brasileiras a um lugar de destaque no cenário mundial.

Há muita coisa em jogo na viagem do presidente Lula ao Irã