Título: Meta de superávit só com desconto do PAC
Autor: Beck, Martha; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 14/05/2010, Economia, p. 27
Mesmo com gasto menor do governo, economia de 3,3% do PIB não deve ser atingida
BRASÍLIA. O corte adicional de R$10 bilhões no Orçamento não deve evitar que o governo tenha de abater os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para cumprir a meta de superávit primário (economia para pagamento de juros) de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. A avaliação é compartilhada por analistas, parlamentares e alguns técnicos da equipe econômica.
O que se diz agora internamente nos corredores do governo é que não vai ser possível atender o desejo do ministro da Fazenda, Guido Mantega. No primeiro relatório trimestral de inflação do ano, o próprio Banco Central (BC) já havia avaliado que o país precisará usar esse mecanismo para abater até 1,12 ponto percentual da meta.
O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), afirmou que Mantega "está tentando ser mais realista do que o rei". Até porque o decreto do Orçamento já está levando em conta o desconto dos investimentos:
- Estamos debelando um incêndio e não se pode querer economizar água agora. Não dá para tratar este ano com normalidade depois de 2009. A Europa ainda está em crise - disse Jucá.
Mesmo com alta na arrecadação, meta é difícil, dizem analistas
Para o economista da consultoria Tendências Felipe Salto, se o governo não usar o abatimento do PAC, o superávit primário de 2010 dificilmente passará de 2,8% do PIB, descumprindo a meta:
- Mesmo com a recuperação da arrecadação em função do crescimento e com o novo corte nas despesas, é muito difícil que o governo consiga cumprir a meta cheia do primário. A estimativa de despesas para o ano já veio muito alta.
O especialista em contas públicas Raul Velloso afirmou que, embora a arrecadação tenha se recuperado e voltado aos níveis de antes da crise de 2008, as despesas públicas já estavam crescendo num patamar muito superior ao das receitas:
- Para equilibrar as contas, a arrecadação tem que crescer acima do PIB, que está muito acelerado.
No início do ano, o governo federal já havia cortado R$21,8 bilhões, o que, somado ao novo contingenciamento, equivale a cerca de 1% do PIB.
Para o economista da Austin Rating Alex Agostini, ainda não se pode dizer que o cumprimento da meta cheia é impossível, mas está cada vez mais difícil. Ele lembrou que o governo sempre encontra mecanismos para ajustar as suas finanças na reta final. (Martha Beck e Vivian Oswald)