Título: Salvo pela (má) tradução
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 15/05/2010, O Mundo, p. 33
Lula comete gafe ao citar invasão soviética no Afeganistão, mas russos não ouvem MOSCOU. O estilo despojado com que desafia protocolos ontem colocou Lula numa saia justa durante o encontro com Dmitri Medvedev: ao responder a uma pergunta sobre suas expectativas nas negociações do acordo nuclear do Irã, o presidente brasileiro mencionou ter sido contra a intervenção da antiga União Soviética no Afeganistão, em 1979, um assunto ainda sensível não apenas por conta da derrota, mas pelas ramificações na desestabilização daquele país.
Lula cometeu a gafe quando disse que a mediação brasileira é parte de um esforço diplomático que deveria ser estendido para questões como o conflito árabeisraelense e a reconstrução afegã após a ocupação da coalizão liderada pelos EUA. Lula queria promover planos do envio ao Afeganistão de uma missão da Embrapa para discutir programas de desenvolvimento agrícola no país.
Passei parte da minha juventude sendo contra a invasão do Afeganistão pela Rússia, agora quero paz no Afeganistão. Estamos mandando uma equipe de pesquisadores da Embrapa para ver como podemos ajudá-los a produzir alimentos disse Lula.
Além das memórias de um conflito que durou 10 anos e em que mais de 14 mil soviéticos morreram enfrentando a guerrilha financiada por EUA, Reino Unido e uma série de países muçulmanos, a intervenção soviética no Afeganistão, iniciada para apoiar um regime marxista pró-Moscou, ajudou a fomentar o radicalismo islâmico que anos mais tarde resultaria no Talibã.
Lula, porém, foi salvo pela péssima qualidade dos tradutores. Jornalistas russos disseram não ter ouvido a referência. Ainda assim, o presidente vinha se alongando nas respostas e Medvedev, impaciente, interrompeu o colega pouco depois para encerrar a sessão que estava 40 minutos atrasada, e Lula ainda tinha uma audiência com o premier Vladimir Putin.
Os gregos, porém, poderão ficar um pouco aborrecidos: antes de ir ao Kremlin, Lula discursou num seminário de negócios e, ao analisar o pânico nos mercados, pareceu menosprezar a influência grega: É inexplicável que um país do tamanho da Grécia cause pânico nas bolsas do mundo inteiro. (F.D)