Título: Brasil vai cobrar um compromisso por escrito de Teerã
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 15/05/2010, O Mundo, p. 33
Amorim viaja às pressas para tentar costurar acordo antes da chegada de Lula
BRASÍLIA. No encontro que terá com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, amanhã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirá que a fase de retórica terminou e que o líder iraniano terá de assumir um compromisso, por escrito, de que seu programa nuclear é para fins pacíficos, caso queira se livrar da possibilidade de sanções defendidas pelas potências ocidentais.
Essa garantia, que poderia ser dada por meio de uma carta assinada por Ahmadinejad à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), faz parte de um acordo que começou a ser costurado ontem, em Teerã, pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
A ida de Amorim a Teerã foi decidida ontem, às pressas. O ministro deixou a comitiva do presidente que estava na Rússia e se preparava para embarcar para o Qatar a fim de buscar um entendimento antes das conversas que Lula terá tanto com Ahmadinejad quanto com o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Uma das preocupações das autoridades brasileiras é o risco de que a divisão que ainda persiste no Irã, após a reeleição de Ahmadinejad, possa prejudicar o processo negociador.
Falta de compromisso levaria à perda do apoio brasileiro Segundo fontes que acompanham as discussões, o presidente Lula também deixará claro às autoridades iranianas que, caso não haja abertura para a retomada de um diálogo entre o Irã e a agência da ONU, o país perderá o apoio do Brasil. Apesar das pressões internas e internacionais, o governo brasileiro sempre se posicionou contra a aplicação de sanções motivadas meramente por suspeitas.
De acordo com um alto funcionário do governo brasileiro, espera-se que Ahmadinejad empenhe sua palavra no sentido de que quer retomar as negociações com a AIEA e em que termos. Por exemplo, onde ocorrerá a troca de urânio de baixo enriquecimento. A tendência é que o local da operação seja a Turquia, como defende o Brasil. O país é tido como um território neutro, que goza de boas relações com o Irã e com os Estados Unidos, e tem se mostrado um importante aliado do Brasil no impasse envolvendo o programa nuclear iraniano.
A expectativa é que os principais pontos do acordo sejam divulgados somente na segunda-feira, após uma reunião reservada entre Lula, Ahmadinejad e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Lula e Erdogan participarão da sessão inaugural da cúpula do G-15, grupo formado por países em desenvolvimento.