Título: Expectativas contrastantes
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 15/05/2010, O Mundo, p. 33
Em Moscou, Lula vê 99% de chance de obter acordo do Irã; cauteloso, Medvedev aposta em 30% Enviado especial MOSCOU
Os diplomatas brasileiros esperavam um manifestação de consenso entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com seu equivalente russo, Dmitri Medvedev, em relação ao acordo sobre o programa nuclear iraniano. Mas na véspera da viagem de Lula a Teerã para um encontro que tem sido visto como uma última chance de convencer o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad a aceitar uma solução mais harmoniosa para o impasse, o salão nobre do Kremlin terminou sendo o palco de uma demonstração de divergência gritante de expectativas: Medvedev disse ver chances de sucesso de apenas 30% nas conversas entre Lula e Ahmadinejad. Mas, otimista, o presidente brasileiro aposta em 9,9 numa escala de 1 a 10.
Depois de uma hora e 40 minutos reunidos, incluindo numa sessão privada, sem a companhia dos ministros que acompanham as delegações, os dois presidentes concederam uma entrevista coletiva em que Medvedev aproveitou para endossar o tom de ultimato dado na véspera pelo governo americano aos iranianos, em que frases de apoio à iniciativa diplomática brasileira estavam entremeadas com a descrença em chances reais de sucesso na missão de Lula de convencer Ahmadinejad a aceitar a proposta da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), sob a qual o país faria uma terceirização do enriquecimento de urânio, além de se comprometer ao uso pacifico do combustível nuclear.
O Irã, se seguir as condições impostas, terá direito a um lugar entre os países que desenvolvem a energia nuclear para fins pacíficos. A visita do presidente Lula talvez seja a última chance de acordo antes de a questão ser levada ao Conselho de Segurança da ONU. Desejo ao presidente Lula muito sucesso e espero que os iranianos escutem o Brasil com atenção. As chances de um acordo? Se meu amigo Lula é otimista, também tentarei sê-lo: eu dou 30% disse o líder russo.
Eu daria 9,9 respondeu Lula, referindo-se a uma escala de um a dez de chances de sucesso.
Hillary: Brasil tenta escalar montanha
Lula, que ontem à tarde viajou para o Qatar, onde tem um rápido programa de visitas antes de seguir para Teerã, recorreu ao discurso conciliador do voto de confiança. Chamando o presidente iraniano de meu amigo, ele disse confiar na experiência de mais de 30 anos em negociações políticas para ajudar a evitar as sanções econômicas e diplomáticas.
Comecei minha vida política fazendo acordo de dirigente sindical, quando empresários nem queriam sentar-se à mesa. O presidente Ahmadinejad tem um lado muito interessante para que a gente possa construir um acordo. Já sei o que todo mundo pensa dele ou do Irã, mas a verdade é que acredito que o povo do Irã quer paz. É preciso estabelecer relação de confiança. Vou utilizar tudo o que aprendi na política nesses 30 anos para convencer o meu amigo a fazer o acordo que agência propõe.
O presidente, porém, também deixou no ar uma preocupação estatisticamente desproporcional com o centésimo de ponto em sua escala de avaliação de sucesso ao dizer que um fracasso nas negociações de Teerã não será por ele encarado como derrota.
Se não chegarmos a um acordo, voltarei para casa feliz por não ter sido omisso, por tentar fazer aquilo que acreditava ser necessário. Mas estou otimista, estarei mais otimista amanhã e espero estar muito mais otimista depois do encontro. Não vejo razão alguma para dizer que não teremos uma boa conversa com o Irã explicou.
Também houve tempo para um novo recado a Ahmadinejad em relação à necessidade de um compromisso de uso da energia nuclear para fins pacíficos, em menções ao fato de o Brasil ser signatário do Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares e ter a proibição de uso militar da energia nuclear na Constituição de 1998.
Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que a intermediação dos governos de Brasil e Turquia já tinha criado elementos para um acordo, no mesmo dia em que o jornal Haaretz publicou entrevista com o titular da pasta iraniana, Manouchehr Mottaki, de que as conversações poderiam resultar no fim do impasse. Mas ontem a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, voltou a mostrar ceticismo.
A conversa entre o presidente Lula e Medvedev em Moscou ilustrou a montanha que os brasileiros tentam escalar. Acredito que não teremos nenhuma resposta séria dos iranianos até que haja uma ação do Conselho de Segurança (da ONU) disse Hillary, em Washington.
Segundo fontes diplomáticas afirmaram em Viena, o Irã instalou novos equipamentos para aumentar a capacidade de enriquecer urânio a níveis mais elevados.