Título: Dilma credita sucessos na economia aos governos 'dos últimos 20 anos'
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 22/05/2010, O País, p. 4
Petista não cita, porém, governantes anteriores a Lula, e só elogia Palocci
NOVA YORK. Em encontro ontem, em Nova York, com cerca de 300 empresários brasileiros e americanos, organizado pela BM&F Bovespa, a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, elogiou o Banco Central por ter sido capaz de aumentar os juros em pleno ano eleitoral, sem levar em conta critérios político-eleitorais.
Ela defendeu a autonomia do Banco Central (BC): ¿ A economia brasileira tem freios e tem um motorista competente, que foi capaz de subir os juros em ano eleitoral.
Isto foi inédito no Brasil.
Ninguém mais espera passar a eleição para dar as más notícias ¿ disse a pré-candidata.
Dilma creditou os sucessos da economia brasileira ¿aos governos dos últimos 20 anos¿, sem, no entanto, citar os governos Fernando Henrique, Itamar Franco e Fernando Collor. Em sua palestra, mencionou três vezes o nome do ex-ministro Antonio Palocci como responsável pelas conquistas do governo Lula e esqueceuse de citar o ministro da Fazenda Guido Mantega.
Ela negou que a economia brasileira esteja superaquecida e possa ser comparada a um carro Toyota desenfreado, com gastos públicos fora de controle e inflação crescente, como avaliou a revista ¿The Economist¿: ¿ Esta comparação não tem sentido. Entre os freios brasileiros estão reservas internacionais de US$ 250 bilhões e uma política independente do BC para elevar juros e controlar a inflação. Não existe descontrole de gastos públicos. E, por isso, não vejo motivo para criticar a politica econômica atual.
Preocupação com inflação
Dilma contestou declarações de seu principal adversário, o pré-candidato do PSDB, José Serra, sobre a autonomia do BC. Ela disse que, nos encontros com empresários, percebeu grande preocupação em saber se a autonomia do Banco Central será mantida, assim com a política de câmbio flutuante, de inflação na meta e de manutenção do superávit fiscal.
¿ Eu respeito a autonomia do Banco Central. E digo mais: o Banco Central não é a Santa Sé, mas é, sem dúvida, quem mais conhece o mercado ¿ disse ela, referindo-se a um comentário recente de Serra.
Pouco antes do discurso de Dilma, o empresário William Rhodes, presidente do Citigroup e do Citibank, alertou a candidata para ¿os riscos da complacência¿: ¿ A economia brasileira teve sucessos recentes, mas ainda há muito o que fazer. O maior risco agora é a complacência, que alguns chamam de arrogância. Há muito o que fazer em matéria de infraestrutura, de controle da inflação.
Os EUA tiveram uma experiência ruim com uma aceleração exagerada da economia, que levou à recessão nos anos 30 e nos anos 70. O Brasil precisa manter responsabilidade fiscal, reduzir a burocracia e o chamado custo Brasil, além de promover profunda reforma fiscal e forte investimento em educação, incluindo pesquisa. Não é hora de se deixar levar pela arrogância ou complacência.
Depois de ouvir o discurso de Rhodes, Dilma disse que está consciente dos ¿perigos da complacência e da soberba¿.
Segundo a pré-candidata do PT, o Brasil teve uma trajetória de queda da relação dívida/PIB, e a economia está estabilizada: ¿ A economia europeia está numa crise profunda, os EUA ainda ensaiam uma retomada, mas nós temos uma redução da relação dívida/PIB.
Somos um país estabilizado, e o ônus do nosso ajuste fiscal foi muito pequeno, se comparado ao dos EUA. Nós não estamos trabalhando com taxa de crescimento maior do que 6% para 2010.
Ela revelou, porém, preocupação com o controle da inflação e prometeu que, caso eleita, vai adotar ¿metas decrescentes de inflação¿ entre 2011 e 2014. A atual meta de inflação no Brasil é de 4,5% ao ano, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
¿ A prudência recomenda que essa redução das metas seja gradual, e que é algo que deve ser feito com cuidado, porque vivemos um período de turbulências econômicas.
Petista corrigiu tradutora
Dilma também reconheceu que há limites para a ação dos bancos públicos e que é hora de buscar uma diversificação das fontes de financiamento para projetos públicos e para empresas estatais.
E reagiu ao ser lembrada que a Petrobras teve problemas recentes para conseguir financiamento internacional nos EUA e que as ações da empresa recuaram aos preços de 2007, antes da descoberta do pré-sal. As ações estão agora em cerca de R$ 32.
¿ A Petrobras teve problemas em 2008, quando nenhuma viva alma conseguia dinheiro no mercado, por causa da quebra do Lehman Brothers. Mas agora não tenho dúvidas de que vai haver investidores para o plano de capitalização da empresa.
Dilma prometeu que sua primeira medida ao assumir o governo, caso seja eleita, vai ser simplificar a estrutura tributária brasileira. A medida incluiria restrição para os estados competirem na hora de dar benefícios fiscais para atraírem investimentos de empresas. Ela declarou ser favorável à criação de um fundo que iria compensar estados e municípios por eventuais perdas na arrecadação de impostos, mas não esclareceu quais.
A maioria da plateia reunida no Hotel New York Palace era de brasileiros, ainda que estivessem presentes executivos de grandes instituições americanas como Barclays, Goldman Sacks, JP Morgan Chase e Citibank. Dilma respondeu às perguntas em português. Ela tinha um casal de tradutores do lado. Elogiou muito o homem e brigou com a mulher.
A briga aconteceu quando a mulher traduziu ¿eu defendo a independência operacional do Banco Central¿ por ¿I defend the independence of the Central Bank¿. Dilma corrigiu: ¿Operational independence!¿ Na saída, ao receber uma camisa de seleção brasileira com o número 10, ela agradeceu, comentando que era o número do Pelé.