Título: Doentes vão à Justiça para garantir cirurgia
Autor: Martin, Isabela
Fonte: O Globo, 23/05/2010, O País, p. 4

No DF, média de ações contra o SUS é de 50 por mês; nos hospitais, faltam médicos

Diante da incerteza nas filas, o brasileiro tem recorrido à Justiça para garantir o direito de se operar. A demanda por liminares é crescente nas defensorias públicas. No Distrito Federal, o órgão criou um núcleo de saúde em 2009. Mensalmente, a média é de 50 ações contra o SUS para obrigá-lo a fazer os procedimentos.

São casos como o do eletricista Valdeir Fábio Ferreira, de 35 anos, internado desde 12 de janeiro no Hospital de Base de Brasília, vítima de uma queda que lhe rendeu uma lesão medular.

Imobilizado numa maca da ala de neurocirurgia, ele aguarda operação de fixação da coluna para iniciar a reabilitação. Quanto mais o tempo passa, menores as chances de recuperação. Ferreira não pode se sentar e levar adiante a fisioterapia. Há risco de complicações, como escaras, tromboses e atrofia nas pernas.

A expectativa era que Ferreira fosse atendido logo, mas, conforme a direção do hospital, uma peça do arco cirúrgico ¿ equipamento necessário à operação ¿ estragou e não foi substituída.

Desesperado, o paciente escreveu carta ao presidente Lula pedindo ajuda. A Presidência respondeu, assegurando vaga no Hospital Sarah Kubitschek.

Porém, sem a intervenção não é possível fazer a transferência.

¿ Só durmo quando o sono vence a dor. A fisioterapeuta disse que a cirurgia ajuda a diminuir o sofrimento ¿ lamenta.

Segundo a Secretaria de Saúde do DF, 263 pessoas estão na mesma situação no Hospital de Base. Na ala feminina da neurocirurgia, a enfermeira Franciane Agatiello, de 28 anos, internada desde março após um acidente de carro, soube que, caso quisesse pagar, a cirurgia custaria R$ 90 mil. Sem condições, resolveu processar o governo do DF para conseguir fazê-la pelo SUS

Não temos fios cirúrgicos, não temos esparadrapos¿ Em relatório anexado à ação, um médico do hospital diz que as equipes passam por limitações descabidas. ¿Não temos filmes para documentar exames, fios cirúrgicos, não temos esparadrapos¿, escreveu.

¿ Fiz pós-graduação em saúde pública, mas não imaginava que o SUS fosse assim ¿ resume Franciane, apavorada com a possibilidade de perder os movimentos das pernas.

No Distrito Federal, a espera média por cirurgia eletiva é de seis meses. Há déficit de 190 anestesistas, segundo o secretário de Saúde, Joaquim Carlos da Silva Barros. Ele admite que o problema está nos valores pagos aos profissionais: ¿ Para recém-formados, é mais negócio ingressar na rede privada. Um salário inicial de médico do SUS varia de R$ 4 mil a R$ 5 mil por 20 horas semanais.

Na rede privada ele ganha isso por um procedimento.

Também faltam profissionais de clínica médica, pediatria e neonatologia. O governo do DF fez concurso para contratar 120 anestesistas. A entrada deles, diz Barros, resolveria.

¿ Se ficarem na rede, a gente consegue zerar a fila em quatro meses. Vamos ver