Título: Em Fortaleza, paciente fica 3 anos na fila para colocar prótese no quadril
Autor: Martin, Isabela
Fonte: O Globo, 23/05/2010, O País, p. 4

Há 2 anos, fila tinha 30 mil; número caiu com investimento de R$ 20 milhões

Nos últimos três anos, a vida de Gladson Henrique Gomes Lopes, de 21 anos, resumiu-se a uma espera. Na fila de mais de mil pessoas para uma cirurgia ortopédica no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), ele abandonou os estudos no último ano do ensino médio, largou o primeiro emprego com dois meses de serviço e brincou sentado o último carnaval.

Gladson sofre dores intensas em ambos os lados do quadril.

Não sabe a causa. Sem poder se locomover muito, não consegue trabalhar como garçom, nem andar os cinco quarteirões entre sua casa e a escola. A espera acabou sexta-feira retrasada, quando, finalmente, foi operado para colocação de uma prótese no quadril esquerdo. E torce para a vida voltar ao normal.

¿ Pretendo retomar os estudos ¿ disse.

Foi a segunda fila de Gladson, que pôs prótese no quadril direito há pouco mais de um ano, após esperar dois anos. Na quartafeira retrasada, ele estava no leito 3201 da enfermaria ortopédica do HGF. Internado desde o dia 29 para exames pré-operatórios, torcia para não passar pelo mesmo susto de 20 dias antes, quando recebeu a notícia do cancelamento da cirurgia meia hora antes de entrar na sala de operação. A vaga fora ocupada por um paciente de emergência.

Maior hospital público do estado de atendimento de alta complexidade, com tecnologia de ponta e referência em transplantes de fígado, rins, córneas e pâncreas, o HGF tem 5.880 pessoas aguardando cirurgia eletiva em 14 especialidades ¿ 76,17% do total da fila da rede estadual, com 7.719 pacientes.

Na ortopedia, espera de 4 anos Há dois anos, o número ultrapassava 30 mil. Graças ao programa Vida Nova, que investiu R$ 20 milhões, foi possível reduzir a fila com mutirões e um trabalho no interior. No HGF, a maior demanda é para ortopedia.

A espera dura de três a quatro anos. Nessa área, são realizadas em média 30 cirurgias mensais. Nas 14 especialidades, são 641.

Com o Vida Nova, a fila caiu pela metade. Mas voltou a crescer.

Com as obras de reforma e ampliação em andamento, o hospital suspendeu os mutirões.

Mês passado, com um problema ocorrido no Instituto José Frota (IJF), principal hospital da rede municipal, o HGF passou a absorver no ambulatório e na emergência parte da demanda.

Suspendeu as cirurgias eletivas em abril por não haver vaga nos centros cirúrgicos.

Cerca de 17 mil pessoas são atendidas por mês no ambulatório do HGF.

¿ O HGF é vítima do próprio sucesso ¿ diz a diretora, Níobe Barbosa. ¿ Se parasse a porta de entrada do ambulatório, a fila (de cirurgia eletiva) seria zerada em um ano.

Pacientes com câncer ou casos de emergência têm prioridade sobre cirurgias marcadas. Essa foi a sorte de Francisco Bruno Ferreira de Sousa, de 19 anos.

Três meses atrás ele caiu e cortou o braço direito. Percebeu que a mão estava ¿secando¿. No HGF, foi encaminhado para cirurgia.

Operou-se na terça-feira retrasada e estava aguardando alta ao lado de Gladson, que, ao contrário dele, teve mais de mil e uma noites de espera.

Para apressar a fila, o estado investe na construção de dois hospitais regionais. O secretário estadual de Saúde, Arruda Bastos, diz que várias cirurgias ortopédicas e oftalmológicas poderiam ter sido evitadas se tivesse havido acompanhamento: ¿ Esperamos zerar a fila em 2011.