Título: O Consenso Colombiano
Autor: Rosas, Luis Eduardo Parra
Fonte: O Globo, 23/05/2010, Opinião, p. 7
Na semana passada os principais candidatos à Presidência da República da Colômbia adotaram uma posição unânime em referência ao processo judicial em curso no Equador, contra Juan Manuel Santos (ex-ministro da Defesa e candidato governista às eleições presidenciais do próximo domingo), por causa do bombardeio do acampamento das Farc em que morreu Raúl Reyes (líder da narcoguerrilha): eles enviaram uma mensagem que deveria repercutir em todas as capitais da América Latina e do mundo.
De maneira contundente, os candidatos presidenciais deixaram claro em um debate televisivo que não pode haver responsabilidade individual naquilo que se constituiu uma ação do Estado.
Além disso, o grupo de candidatos presidenciais fez um novo apelo dirigido àqueles que não sejam colombianos, e especialmente aos líderes de países vizinhos, que não continuem a interferir com palavras em uma disputa político-eleitoral que entrou na sua reta final (a votação é no próximo domingo).
Os últimos ataques externos vieram de Hugo Chávez, presidente da Venezuela. Há poucos dias, ele abriu fogo contra aliados do candidato governista, o que também gerou protestos e críticas na Colômbia. Agora, foi a vez do inquilino do palácio presidencial do Equador, que, em vez de reafirmar o princípio de que no seu país a Justiça é um órgão independente do Poder Executivo, afirmou estar apoiando esse processo judicial, sob a alegação de que do outro lado da fronteira tinha sido cometido um crime ¿ o bombardeio do acampamento das Farc.
Esse raciocínio não tem fundamento. A Colômbia já fez um pedido de desculpas adequado ao Equador, já houve reprimendas nos fóruns internacionais e há a acusação feita por Quito à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Assim, é totalmente desnecessário o uso do microfone para enviar mensagens perturbadoras e reabrir velhas feridas, justamente quando os dois países deram início a um processo de normalização das relações que parece estar no bom caminho.
Mais uma vez, devemos lembrar que as relações entre Colômbia e Equador têm de ser reforçadas e que isso ocorrerá de forma independente das pessoas que tenham responsabilidade pelas respectivas presidências. Caso contrário, no clima de discórdia, só têm a ganhar os criminosos das duas nacionalidades, cujos laços são inegáveis.
Assim demonstra relatório publicados no jornal ¿El Tiempo¿ indicando que o traficante equatoriano Jefferson Ostaiza estaria sob proteção das Farc no Sul da Colômbia. A notícia surgiu no mesmo dia em que dois dos parentes desse fugitivo da Justiça foram condenados por um tribunal, juntamente com seis cúmplices do mesmo crime.
Em vez de ser um motivo de disputa, a mudança de governo em nosso país é uma oportunidade para construir pontes, trabalhar sobre medidas que permitam restaurar e reforçar a confiança mútua e lançar iniciativas conjuntas, tanto para combater os grupos violentos, como para apoiar o desenvolvimento na fronteira, pois as vítimas da tensão entre os dois países têm sido as populações situadas em ambos os lados da linha limítrofe. Assim, o trabalho iniciado pelas comissões binacionais temáticas merece ser reforçado ¿ oxalá que antes da posse da nova administração colombiana, no dia 7 de agosto, como parte dos acordos internos de transição governamental.
À margem disso, é reconfortante ver que a unidade pode voltar a ser a nota dominante no manejo das nossas relações internacionais. Tal como se pôs em evidência no debate dos presidenciáveis, o ideal é que as posições assumidas diante do resto do mundo pelo novo ocupante da Casa de Nariño, sede do governo colombiano, sejam o resultado de um consenso interno a ser construído, como resultado de um debate franco e que, uma vez concluído, estará longe de posições partidárias. Essa união, para dizer com toda clareza, é a que faz a força.
A posição assumida pelos candidatos presidenciais diante do Equador mostra que é possível reconstruir consensos sobre questões como essa.
LUIS EDUARDO PARRA ROSAS é jornalista. © El Tiempo (Colômbia)/GDA.