Título: Secretário critica sub do sub do sub
Autor: Beck, Martha
Fonte: O Globo, 27/05/2010, Economia, p. 24
Declaração foi resposta à ideia de taxar importações argentinas de alimentos
BRASÍLIA. A irritação do governo brasileiro com os rumores de que a Argentina poderia proibir as importações de alimentos que são produzidos pela indústria local foi demonstrada ontem pelo secretário de Comércio Exterior, Welber Barral.
Qualquer medida tem que ser fundamentada. Não é porque o sub do sub do sub teve uma ideia mirabolante que nós vamos sair tomando medidas sem avaliação disparou Barral, referindose, sem citar nomes, ao secretário de Comércio Exterior argentino Guillermo Moreno.
Segundo técnicos do governo e empresários brasileiros, Moreno seria o autor da ameaça publicada com destaque na imprensa argentina. Barral disse ainda que, se a Argentina confirmar a intenção de taxar produtos, o Brasil poderá apertar um botão e pagar com a mesma moeda, dificultando o ingresso de produtos daquele país.
Barral enfatizou que as autoridades brasileiras têm como princípio a reciprocidade no comércio exterior. Com essa declaração, ele deixou claro que, se confirmada a ameaça, o Brasil poderá repetir o que fez no ano passado, ao selecionar uma série de itens que passaram a entrar no país pelo regime de licença não-automática, levando até 60 dias para o desembaraço das mercadorias.
Ninguém pode dizer que somos complacentes no comércio exterior. Na visão do governo brasileiro, as relações internacionais são de reciprocidade.
O Brasil tem um mecanismo eletrônico de controle de importação. É um botão advertiu.
Brasil importa US$ 2 bi e vende US$ 500 milhões Para dar uma ideia do poder de força do Brasil em relação aos argentinos, o secretário de Comércio Exterior disse que a exportação de alimentos para o mercado vizinho equivale a um quarto do que é importado de lá. Ou seja, o Brasil exporta US$ 500 milhões e importa US$ 2 bilhões. A margem de retaliação, portanto, é desfavorável à Argentina.
De acordo com o secretário, oficialmente a medida tem sido desmentida pelo governo argentino, inclusive pela presidente daquele país, Cristina Kirchner. Ele acrescentou que tem ouvido apenas relatos de exportadores brasileiros, que se dizem preocupados com a possibilidade de as autoridades argentinas realmente criarem mais uma barreira ao comércio bilateral.
Por enquanto, o que vemos são problemas considerados normais. Por exemplo, de 500 caminhões que passam do Brasil para a Argentina, ontem (anteontem) havia apenas oito parados na fronteira, devido a problemas burocráticos, como a falta de determinado documento disse Barral.
Junto com a secretária-executiva da Câmara de Comércio Exterior, Lytha Spíndola, Welber Barral divulgou um balanço da área de defesa comercial do governo. O resultado não surpreendeu. Do total de medidas aplicadas pelo Brasil contra práticas desleais, a China está em primeiro lugar, com 25 casos, seguida por Estados Unidos (8) e Índia (5).
A China é, no mundo, o país mais investigado em termos de comércio e a principal razão para isso são os preços baixos. Já os EUA são nosso segundo maior parceiro comercial e, quanto mais intenso o intercâmbio, maior o número de contenciosos explicou.
Brasil está na mira dos países vizinhos Outro dado é que, enquanto o Brasil arquivou quase todos os processos abertos contra a Argentina, os vizinhos abriram, somente no ano passado, dez investigações envolvendo produtos brasileiros. São exemplos talheres de aço inoxidável, fios de acrílico, pneus de bicicletas e tintas para impressão.
Segundo Barral, a explicação para essa diferença é que a pauta de exportações brasileiras para a Argentina é mais diversificada que a de importações daquele país.