Título: Premier vetará saída da Portugal Telecom da Vivo
Autor: Rodrigues, Lino
Fonte: O Globo, 28/05/2010, Economia, p. 38

Sócrates diz que governo não quer que espanhola Telefónica compre fatia da empresa portuguesa na operadora

SÃO PAULO, CIDADE DO MÉXICO e LISBOA. A Telefónica tem um novo obstáculo ao seu plano de adquirir a fatia que a Portugal Telecom (PT) tem na Brasicel, a holding que controla a Vivo. O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, afirmou ontem que o governo de seu país não tem interesse em que a PT se desfaça dos 50% de participação que detém na operadora de celular brasileira, atual líder do mercado de telefonia móvel no país. Como o governo português detém uma golden share (ações com direitos especiais) na PT, ele poderia vetar qualquer transação envolvendo a transferência de controle da celular brasileira.

- É interesse estratégico para Portugal ter uma companhia portuguesa com dimensão internacional, e a Vivo é muito importante para esta dimensão. E só com dimensão e escala que uma empresa consegue ter investimento nas áreas de pesquisa, tecnologia e desenvolvimento. É por isso que a Portugal Telecom com a Vivo é essencial para manter aquilo que é estratégico para Portugal nesses domínios da inovação e do desenvolvimento - disse Sócrates, que esteve ontem em visita à Fiesp, entidade que reúne as indústrias paulistas.

Quanto a utilização do poder de veto com o golden share, o premiê português foi contundente em entrevista aos jornalistas portugueses que acompanham sua visita ao Brasil:

- A questão do golden share existe para ser utilizado se for necessário, se for necessário.

A disputa pelo controle da Vivo ganhou ares de briga na semana passada, quando os espanhóis fizeram uma oferta hostil de 5,7 bilhões pela participação que a empresa portuguesa possui na Vivo, uma joint venture controlada pelas duas companhias. Os portugueses da PT rejeitaram a oferta da Telefónica. O grupo espanhol voltou a carga e ameaçou não pagar os dividendos que a PT tem direito na Vivo (cerca de 11 milhões), referente aos resultados de 2009. A Ameaça foi vista como "chantagem" pelo presidente executivo da PT, Zeinal Bava, que se esforça para convencer os acionistas portugueses a não aceitarem a proposta da empresa espanhola.

Diplomático, o premiê português ponderou que o seu governo prefere que a disputa pelo controle da operadora móvel brasileira seja resolvida no âmbito das duas empresas. Ele lembrou, no entanto, que a companhia portuguesa apostou no Brasil há muitos anos e agora está colhendo os frutos desse investimento.

- A Portugal Telecom apostou no Brasil há muitos anos e, quando muitos achavam que era um investimento que não traria consequências positivas, vemos com satisfação que foi uma aposta muito positiva quer para a PT e também para o desenvolvimento do Brasil - afirmou o premiê português. - Este é um interesse estratégico de Portugal, quanto ao resto, isso deve ser tratado ao nível das relações das empresas.

Carlos Slim desmente interesse na Vivo

Ontem, o investidor mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, desmentiu a notícia, publicada no jornal português "Diário Econômico", de que estaria interessado na compra de participação na Portugal Telecom, segundo revelou um porta-voz do bilionário. De acordo com a notícia, publicada ontem de manhã, a medida seria uma forma de barrar o avanço da Telefónica sobre a Vivo. O jornal acrescentou que Slim teria uma equipe em Lisboa preparando a compra de uma parte da Portugal Telecom.

O jornal, citando fontes, publicou que Slim manteve contato com a Portugal Telecom e com alguns de seus principais acionistas, como o banco português Espírito Santo.

- Não existem discussões com o pessoal da Portugal Telecom - disse o assessor de Slim Arturo Elias Ayub.

A América Móvil, detida por Slim, controla a Claro, segunda maior operadora celular do Brasil, atrás da Vivo, que lidera o mercado brasileiro e tem gestão compartilhada por Telefónica e Portugal Telecom.

Na quarta-feira, o vice-presidente financeiro da Telefónica foi citado em entrevista publicada por um jornal, ameaçando uma aquisição hostil da Portugal Telecom na tentativa de persuadir a empresa a vender a participação na Vivo.