Título: Netanyahu radicaliza o tom
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Fonte: O Globo, 03/06/2010, O Mundo, p. 27

Premier israelense chama críticos de hipócritas e garante que não levantará o embargo a Gaza TEL AVIV

Num tom duro e desafiador, em seu primeiro discurso à nação desde o ataque de Israel ao navio turco Mavi Marmara que tentava furar o bloqueio à Faixa de Gaza, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, acusou críticos de hipócritas e defendeu a ação da Marinha contra a frota humanitária, que deixou nove ativistas mortos. Enquanto isso, em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovava a criação de uma comissão independente para investigar supostas violações cometidas durante a ação militar israelense.

No Reino Unido, o premier David Cameron pediu o fim do bloqueio a Gaza, afirmando que o embargo reforça o controle do Hamas sobre a economia e sobre a região.

¿ Mais uma vez Israel enfrenta a hipocrisia e um pré-julgamento tendencioso ¿ disse Netanyahu sobre seus críticos internacionais.

O premier declarou que Israel manterá o bloqueio à Faixa de Gaza, dizendo que levantar o embargo agora seria permitir que a região se transformasse em base de mísseis iranianos que ameaçariam não apenas Israel, mas toda a Europa.

¿ Nosso dever é inspecionar todos os barcos que chegam. Se não o fizermos, Gaza se tornará um porto iraniano, o que seria uma ameaça real para o Mediterrâneo e a Europa ¿ disse Netanyahu, ao acusar o Hamas de continuar se armando.

¿ É nossa obrigação evitar que essas armas sejam transportadas por terra e mar.

`Não era barco do amor, era um barco do ódio¿

Defendendo a ação militar israelense, o premier afirmou que o objetivo da flotilha era apenas de furar o bloqueio, ¿e não de trazer mercadorias, já que isso nós deixaríamos¿.

¿ Se o bloqueio fosse furado, dezenas e centenas de navios com carregamento de armas poderiam ter vindo. Esse não era um barco do amor, era um barco do ódio ¿ justificou o premier, que cancelou sua viagem a Washington e um encontro com o presidente Barack Obama por causa do ataque.

Numa reunião extraordinária convocada após o episódio, Netanyahu disse a seus ministros que o bloqueio a Gaza ainda era necessário.

¿ Sabemos pela experiência da Operação Chumbo Fundido que as armas que entram em Gaza se voltam contra os nossos civis ¿ concluiu, referindo-se à ofensiva de janeiro de 2009.

Ontem, o vice-presidente americano, Joe Biden, defendeu o bloqueio à Faixa de Gaza e a decisão de interceptar o comboio. Segundo ele, os ativistas tiveram a opção de descarregar a ajuda no porto de Ashdod.

Conselho de Direitos Humanos: ação ultrajante

Ao contrário da declaração alcançada no Conselho de Segurança da ONU na madrugada de terça-feira ¿ que não condenou Israel e pediu uma ¿investigação imparcial¿ ¿, o Conselho de Direitos Humanos da organização aprovou ontem a criação de uma comissão independente para investigar supostas violações do direito internacional.

A resolução qualifica a ação de ¿ultrajante¿ e exige ¿total responsabilização e inquéritos independentes críveis¿.

Proposta por Paquistão e Sudão, em nome respectivamente da Organização da Conferência Islâmica e do grupo árabe, a resolução teve 32 dos 47 votos: EUA, Itália e Holanda votaram contra; nove países europeus, africanos e asiáticos se abstiveram; e três não votaram.

¿ Nós achamos isso inapropriado e apontamos que poderia ser uma corrida ao julgamento ¿ disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, Phillip Crowley, acrescentando: ¿ Ainda acreditamos que Israel está na melhor posição para liderar as investigações.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi a público ontem para criticar Israel, e afirmou que o ataque é ¿completamente inaceitável¿.

¿ Temos que garantir que isso não aconteça nunca mais ¿ disse o premier, afirmando que falou por telefone com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, quando prestou condolências pela morte de, pelo menos, quatro turcos.

Durante audiência pública, o Papa Bento XVI também lamentou a morte dos ativistas e condenou a ação militar: ¿ Com o espírito aflito, que a violência não resolve as controvérsias, mas aumenta as dramáticas consequências e gera mais violência.