Título: ONU amplia lista de sanções contra o Irã
Autor: Martins, Marília; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 09/06/2010, O Mundo, p. 36
Punições devem ser aprovadas hoje mas voto do Brasil ainda é incerto Marília Martins*, Eliane Oliveira e Luiza Damé Correspondente* ¿ WASHINGTON e BRASÍLIA
O Conselho de Segurança da ONU acertou ontem os últimos detalhes do projeto de resolução impondo novas sanções ao Irã, que deverá ser votado na manhã de hoje. A aprovação é tida como certa, uma vez que o texto contou com o apoio de 12 dos 15 membros do conselho, incluindo todas as cinco potências com direito a veto ¿ Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Nas reuniões preparatórias para a votação de hoje, apenas três delegações manifestaram oposição à proposta liderada pelos americanos: Brasil, Turquia e Líbano.
A nova rodada de sanções inclui uma lista negra com os nomes de 40 empresas e agências governamentais iranianas, e menciona Javad Rahiqi, chefe do Centro de Tecnologia Nuclear de Isfahan, que terá seu nome incluído numa lista de proibição de viagens internacionais. Pelo menos 15 companhias controladas pela Guarda Revolucionária iraniana seriam alvo de sanções ¿ que preveem o congelamento de bens dessas empresas no circuito internacional, inspeção de embarcações destinadas ao Irã em águas internacionais e portos de partida.
Das 40 empresas, 22 estão envolvidas com atividades de suporte ao programa de mísseis balísticos.
Há também na proposta uma ampliação substancial da proibição de fornecimento de armas ao país, incluindo tanques, jatos, helicópteros de ataque, navios, equipamentos de artilharia e de suporte a mísseis e componentes eletrônicos que possam ter uso militar. Além disto, todas as empresas mineradoras que atuam no Irã ou que comercializem com o país minérios que possam ser usados como combustível nuclear estão na lista de restrições.
¿ Estas são as sanções mais significativas que o Irã já enfrentou ¿ declarou a secretária de Estado, Hillary Clinton, em visita a Quito.
Também bancos iranianos terão suas atividades restritas no mercado internacional caso haja suspeita de envolvimento no programa nuclear.
Entre as companhias citadas no texto está a Islamic Republican of Iran Shipping Lines (Irisl), a maior empresa de transporte de carga marítima, que passa a ter seus navios inspecionados em todas as incursões em águas internacionais.
¿ Fizemos uma proposta bastante dura para atingir o programa nuclear iraniano e obtivemos um apoio muito significativo para continuarmos com a estratégia de combinar pressão e diplomacia a fim de persuadir os iranianos a desistirem do enriquecimento de urânio ¿ disse a embaixadora americana na ONU, Susan Rice
Contrariado, Amorim lamenta a medida
Dando sinais de que vai votar contra, o governo brasileiro trabalhou, nos últimos dias, tentando adiar a sessão. A proposta do Brasil, apresentada na segunda-feira, era para que houvesse um debate aberto sobre o Acordo de Teerã, antes de qualquer discussão sobre novas punições. Ontem, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conversou por telefone com os chanceleres de Rússia, Sergei Lavrov, e China, Yang Yiechi.
O acordo ¿ assinado por Brasil, Turquia e Irã ¿ prevê a troca de urânio iraniano levemente enriquecido por combustível. Para os governos brasileiro e turco, o acerto atende as exigências dos americanos que, no entanto, demonstraram um empenho ainda maior na defesa de sanções um dia depois do entendimento obtido durante a viagem do presidente Lula a Teerã.
¿ Não sabemos se no fim o Brasil votará contra ou vai se abster. O que queremos é que os termos do Acordo de Teerã sejam discutidos antes de se votar as sanções ¿ afirmou um alto funcionário do governo brasileiro.
O embaixador mexicano e atual presidente do Conselho de Segurança, Claude Heller, disse que a entidade decidiu fazer um debate político da proposta a pedido de Brasil e Turquia. A conversa, porém, aconteceu sob o impacto do último relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que aponta discrepâncias entre o número e o tamanho das usinas iranianas, a quantidade de urânio enriquecido que o país já declarou ter acumulado e o objetivo de ter um programa apenas para fins pacíficos.
A AIEA acusa o Irã de continuar a negar acesso a suas usinas nucleares e de manter instalações secretas para enriquecimento. E afirma que o país teria hoje quantidade suficiente de urânio enriquecido para fabricar duas bombas. A resolução da ONU volta a condicionar o fim das sanções à suspensão definitiva do programa iraniano de enriquecimento de urânio.
A embaixadora brasileira nas Nações Unidas, Maria Luiza Viotti, não revelou como o Brasil vai votar ¿ se vai se abster ou votar contra.
¿ Temos uma posição pública contra novas sanções e neste debate pedimos que houvesse maior transparência e que todos justificassem seus votos na hora da votação ¿ disse a embaixadora.
Em entrevista ao programa ¿Roda Viva¿, da TV Cultura de São Paulo, Amorim não quis revelar o voto do Brasil, mas deixou claro que o governo brasileiro é contra as sanções. Ele disse ainda que as negociações entre os membros permanentes em torno da reunião de hoje colocam em xeque a credibilidade do Conselho de Segurança da ONU: ¿ Voto é uma coisa que a gente só diz na hora.
Não se faz pesquisa prévia de votos. Achamos lamentável que haja essas sanções ¿ disse.