Título: A onda dos 'venecubanos'
Autor: Costa, Mariana Timóteo da
Fonte: O Globo, 13/06/2010, Mundo, p. 32

Enviados de Cuba ocupam milhares de postos em áreas estratégicas do governo Chávez

Meses antes de deixar o poder em Cuba, em 2006, Fidel Castro ¿ depois de uma reunião com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez ¿ disse: ¿Somos venecubanos¿. De lá para cá, o governo de seu irmão, Raúl Castro, contrariou expectativas internacionais de que limitaria a relação entre a ilha e a Venezuela, com a intenção de se aproximar do governo Barack Obama ¿ que acenou estar disposto a amenizar o embargo a Cuba.

A Venezuela de Chávez tornou-se, nos últimos quatro anos, a grande financiadora da economia cubana e, em troca, recebe serviços.

Calcula-se que até 50 mil cubanos atuem hoje no país em campos como medicina, ensino, treinamento de atletas e, o que mais preocupa os venezuelanos: inteligência, imigração e forças militares. Analistas, dissidentes, sociedade civil e alguns setores das Forças Armadas da Venezuela afirmam que trata-se de uma relação sem precedentes na América Latina, em que um ¿país entrega sua soberania a outro¿, como acredita o ex-chanceler venezuelano Simón Alberto González, articulista do jornal ¿El Nacional¿, lembrando que ¿Venecuba¿ ou ¿Cubazuela¿ viraram termos para definir a ligação entre os dois países.

¿ Cada dia mais somos a mesma coisa ¿ disse Raúl Castro, durante uma visita a Caracas em abril último.

Chávez dá declarações semelhantes.

No mês passado, irritou-se quando uma jornalista lhe perguntou sobre a presença militar cubana no país: ¿ Cuba nos ajuda modestamente em algumas coisas que nunca vou detalhar para você. Tudo o que Cuba faz pela Venezuela é para fortalecer a nossa pátria, que é deles também.

Petróleo a Havana, serviços em Caracas

O ex-general Antonio Rivero, que deixou recentemente o Exército de Chávez, denuncia o esquema: em troca de um comércio anual de US$ 7 bilhões com Caracas e do recebimento dos mais de 100 mil barris de petróleo que o governo Chávez envia diariamente à ilha, Cuba fornece serviços.

Segundo ele, há milhares de militares treinando tropas venezuelanas e especialistas em informática trabalhando no sistema de identificação e imigração em portos e aeroportos do país.

¿ Uma linha foi cruzada. Eles estão tão envolvidos na defesa e nos sistemas de comunicação da Venezuela que saberiam como interferir numa eventual crise ¿ afirma o militar, que quer agora concorrer a uma vaga no Congresso nas eleições de setembro.

De acordo com o ex-general, os militares cubanos assistem reuniões do alto escalão das Forças Armadas venezuelanas, treinam franco-atiradores, obtêm conhecimento detalhado das redes de comunicação e aconselham os militares em bunkers subterrâneos construídos para armazenar armas.

¿ Eles sabem que armas a Venezuela tem e com quais poderiam contar numa eventual crise. Se Chávez perder as eleições presidenciais de 2012, é possível que os cubanos formem parte de uma guerrilha para defendêlo. Eles também sabem onde estão os escritórios de comando e controle, onde estão as áreas de comunicação vital ¿ diz o general.

Outro ex-general, Ángel Vivas Perdomo, enfrenta tribunal militar por insubordinação após ter se recusado a adotar a saudação das Forças Armadas cubanas, que Chávez também oficializou para seu Exército: ¿Pátria, Socialismo ou Morte! Venceremos!¿ ¿ Há um descontentamento grande em alguns setores militares com a simbiose entre Venezuela e Cuba ¿ afirma o cientista político Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela.

Para Romero, a relação entre os dois países está numa terceira fase, ¿muito mais radicalizada¿.

¿ Acho que isso gera mais inquietude do que uma ameaça militar em si.

Chávez não sustentaria iniciar uma guerra, nem dentro e nem fora da Venezuela.

Mas o presidente sabe que, atualmente, só pode recorrer a Cuba para manter sua posição ideológica.

Entre os venezuelanos, suas propostas não encontram eco ¿ diz o analista, lembrando que pesquisas mostram que até 80% dos moradores do país rejeitam o modelo cubano.

Na quarta-feira passada, Chávez defendeu seu regime econômico durante inacreditáveis seis horas, em cadeia nacional de rádio e televisão, nas quais declarou ¿guerra econômica contra a burguesia¿. Ameaçou ainda expropriar a empresa Polar, a maior produtora de alimentos do país. O governo enfrenta uma forte desacelaração econômica e desabastecimento do setor de alimentos, além da maior inflação da região. O presidente culpa o capitalismo pela crise, e defendeu sua luta pela adoção de um modelo socialista, ¿como o de Cuba¿.

Ex-embaixador da Venezuela na ONU, Diego Arria teve sua fazenda de 380 hectares, em Yaracuy, expropriada mês passado. Sua primeira reação não foi organizar um protesto em frente ao Palácio de Miraflores, mas em frente à Embaixada de Cuba em Caracas.

¿ É ali que está o lado negro da força.

São os cubanos quem tomam as decisões mais importantes na Venezuela, como as expropriações de terras produtivas como a minha, com o objetivo de aqui adotar o mesmo modelo socialista fracassado de Cuba ¿ diz Arria, que esteve em Paris no início do mês, reunindo-se com o ministro das Relações Exteriores francês, Bernard Kouchner.

Na reunião, Arria denunciou as ¿violações aos direitos humanos cometidos pelos chavistas¿.

¿ Foi a primeira vez que um chefe da diplomacia francesa se reuniu com um opositor venezuelano. Os europeus estão horrorizados e têm visão clara do colapsado sistema democrático do país ¿ contou ele ao GLOBO.

Os cubanos que vivem na capital venezuelana são reclusos. Médicos, professores e treinadores são proibidos de dar entrevistas. É difícil encontrar imigrantes que trabalhem em setores não ligados ao governo.

¿ Quem antes imigrava para cá por não aguentar viver na ditadura já deixou a Venezuela ¿ diz Soledad Murilo Belloso, colunista do ¿El Universal¿.