Título: Novo chanceler nega caixa dois na Argentina
Autor:
Fonte: O Globo, 23/06/2010, O Mundo, p. 31
Hector Timerman toma posse sob acusações de encobrir escândalo de propinas em comércio com Venezuela BUENOS AIRES. O ex-embaixador argentino nos Estados Unidos, Hector Timerman, tomou posse ontem como novo ministro das Relações Exteriores do país. Aos 56 anos, Timerman, aliado político do casal Kirchner, chega ao cargo sob uma enxurrada de críticas ¿ acusado de tentar encobrir um escândalo de subornos no qual empresas argentinas teriam que pagar altas propinas para vender mercadorias à Venezuela.
Timerman substitui o chanceler Jorge Taiana, que pediu demissão à presidente Cristina Kirchner na última sexta-feira, alegando ¿diferenças irreconciliáveis¿ na administração da Chancelaria argentina.
Ministro faz ameaça velada a jornalistas logo após a posse Perguntado se havia, de fato, um esquema financeiro funcionando como uma embaixada paralela em Caracas, o novo chanceler foi incisivo: ¿ Já disse o que penso desse assunto. A embaixada paralela funciona na mente de alguns jornalistas.
Mas não de todos.
A crise teve início quando Taiana negou-se a impedir o testemunho no Congresso do diplomata Eduardo Sadous, exembaixador na Venezuela ¿ motivo de sua demissão.
Em abril passado, Sadous havia jurado perante um juiz que empresários denunciaram estarem sendo obrigados a pagar 15% de comissão ao Ministério do Planejamento da Argentina ¿ através de uma empresa de exportação e importação em Miami, nos Estados Unidos ¿ para atuarem na Venezuela. Segundo a denúncia, os crimes ocorreram quando Sadous ocupou o cargo em Caracas, entre 2002 e 2005, e o dinheiro da propina seria destinado a funcionários argentinos e venezuelanos.
Sadous jura ainda ter informado seus superiores das queixas do grupo de empresários ¿ sem receber qualquer resposta.
Os dois governos negam as acusações, mas a denúncia levou a oposição a pedir uma investigação detalhada do caso ao Congresso ¿ numa tentativa de provar que a presidente Cristina Kirchner e seu marido e antecessor, Nestor, vêm enriquecendo ilicitamente.
Sob o risco de ser acusado de tentar encobrir o caso se não permitisse o depoimento de Sadous, o chanceler demissionário teria, então, aprovado o testemunho do ex-embaixador ¿ numa manobra considerada como traição pela Presidência.
Na primeira entrevista como chanceler, Timerman negou qualquer pressão sobre o ex-embaixador e assegurou que ele pode falar, mas sem desrespeitar o juramento diplomático de não revelar segredos de Estado. ¿ Não vou falar com Sadous. Já falei no sábado e disse a ele que pode testemunhar, mas que como funcionário está sujeito a certas leis ¿ afirmou Timerman, antes de fazer o que pareceu uma ameaça velada à imprensa local. ¿ (Ele) está sujeito assim como vocês, sujeitos a respeitar o off the record. Inclusive há jornalistas presos por violar essa regra ¿ disse, num tom ameaçador.
Segundo os opositores, os supostos subornos explicam o aumento da riqueza do Casal K em até seis vezes, desde que assumiram o poder em Buenos Aires: de US$1,8 milhão em 2003, quando Kirchner assumiu a Presidência, para mais de US$ 12 milhões no ano passado, segundo estimativas de um escritório anticorrupção.