Título: Partidos alegam que não se recusa apoios em campanhas eleitorais
Autor: Damé, Luiza ; Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 27/06/2010, O País, p. 3

Mas ninguém esconde que isso é feito por causa do tempo de TV

BRASÍLIA. Embora ninguém queira assumir publicamente, a presença de aliados com passado repleto de casos comprometedores incomoda. Um petista envolvido na campanha da candidata Dilma Rousseff diz que, ¿infelizmente¿, os candidatos buscam alianças levando em consideração a possibilidade de votos e o tempo na TV dos partidos.

Mas o discurso público e oficial é todo no sentido de minimizar o passado dos aliados.

O principal argumento é que apoio não se rejeita em campanha eleitoral. José Eduardo Cardozo, secretário-geral do PT e um dos coordenadores da campanha de Dilma, vale-se da questão da legalidade para dizer que ninguém pode ser impedido de buscar votos.

¿ Todo cidadão com seus direitos plenos pode disputar as eleições. Acho incorreto que se fale em situações mais pesadas ou menos pesadas. A política de alianças deve considerar a ideologia e os projetos dos aliados ¿ diz ele.

`O mal é do sistema¿

Do lado tucano, a situação também não é confortável. Até o DEM, um aliado histórico (como PFL) do PSDB desde a primeira eleição de Fernando Henrique, em 1994, ainda causa constrangimentos aos tucanos.

Para figurar ao seu lado como companheiro de chapa, o tucano José Serra evita escolher como vice um integrante do partido que protagonizou ano passado o escândalo do mensalão do DEM no DF, sob o comando do ex-governador José Roberto Arruda (sem partido).

Mas não terá como evitar a presença em seu palanque de companheiros complicados do seu próprio partido, o PSDB.

Candidata à reeleição, a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), se viu envolvida numa série de denúncias e por pouco não sofreu impeachment.

Uma das denúncias era que seu ex-marido teria recebido R$ 400 mil de propina de duas empresas de cigarros.

Outros dois tucanos ¿ ameaçados pela Lei da Ficha Limpa de não conseguirem registro para suas candidaturas ¿ montam palanque para Serra: o governador cassado Cunha Lima (PB); e o senador também cassado Expedido Júnior, de Rondônia.

Mais polêmico e mais conhecido no cenário nacional é Joaquim Roriz (PSC), que concorre ao governo do Distrito Federal e será o palanque de Serra na capital. Entre outras acusações, Roriz é suspeito de receber propina de emp resários de transporte. Devido a essas denúncias, renunciou ao mandato de senador para não ser cassado.

Mesmo sem se candidatar a nada ¿ até porque seus direitos estão cassados ¿, o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, tem em seu currículo o fato de ser réu no processo do mensalão e é agora o ¿mais novo fiel aliado¿ de Serra.

Para o líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA), o sistema político-eleitoral é que leva à busca de alianças para aumentar o tempo no rádio e na TV. Ele reconhece que alianças incômodas acabam se tornando soluções convenientes: ¿ Nos dois palanques há aliados ¿convenientes¿. Ambos têm companhias que não têm boa imagem, mas têm tempo de TV. Esse tempo é precioso. O mal é do sistema brasileiro e do grau de cultura política. Na minha opinião, o tempo de TV deveria ser dividido entre os partidos que têm candidatos nas eleições majoritárias.

Para o tucano, os critérios de distribuição do tempo de propaganda gratuita deveriam ser mudados: ¿ O par tido não pode se tornar conveniente por causa do tempo.

A lei concede a partidos que não têm ideia, não têm programa, um tempo a negociar. Isso é um erro.

Pela regra atual, quanto mais partidos na coligação, e quanto mais parlamentares eles tiverem, mais tempo o candidato terá. Dilma, por exemplo, poderá ter 8 minutos e 51 segundos em cada programa (um de manhã e outro à noite) no horário eleitoral gratuito, por força do amplo arco de alianças ¿ PT, PMDB, PDT, PR, PCdoB, PSB e PRB.

Serra deve ter menos exposição no rádio e na TV, 6 minutos e 46 segundos por programa, sendo que uma boa parcela desse tempo é do DEM, partido que compõe a coligação juntamente com PPS, PTB e PSC, além do PSDB. O PV de Marina Silva (PV) conta com 51 segundos. (Chico de Gois e Luiza Damé)