Título: Escolha de vices não leva em conta a História
Autor: Alves, Gustavo
Fonte: O Globo, 01/07/2010, O País, p. 11

ELEIÇÕES 2010

Nomes são indicados sem a lembrança de que, de Deodoro a Collor, oito presidentes tiveram de ser substituídos

GETÚLIO VARGAS: ele se matou com um tiro

COSTA E SILVA: morreu no exercício do cargo

JOÃO GOULART: foi derrubado pelo regime

JÂNIO QUADROS: acabou renunciando

TANCREDO: morto, assumiu Sarney

FERNANDO COLLOR: sofreu impeachment

A frase do humorista Ivan Lessa de que de 15 em 15 anos o Brasil esquece o que houve nos últimos 15 anos nunca parece tão acertada quando se pensa nos vices escolhidos pelos candidatos à Presidência este ano. Os nomes indicados por dois dos principais candidatos serviram para garantir alianças e mais tempo de TV, no caso de Indio da Costa e do peemedebista Michel Temer. Ou para se aproximar de empresários, como no caso de Guilherme Leal, presidente da Natura. Mas, entre os critérios que os levaram a ser escolhidos, não parece ter sido levada em conta a hipótese de que eles possam, um dia, assumir a Presidência .

- É uma possibilidade que se tornou bastante frequente na História do Brasil - alerta a historiadora Isabel Lustosa, autora de "História de Presidentes da República", antes de enumerar os casos das sete vezes em que o vice assumiu, sem contar um em que ele foi impedido, durante o regime militar de 1964.

Delfim Moreira assumiu com problemas mentais

O primeiro deles foi o primeiro vice - Floriano Peixoto substituiu Deodoro da Fonseca, que renunciou depois de proclamar a República. Em 1909, foi a vez do campista Nilo Peçanha assumir no lugar de Afonso Pena, que morreu durante seu mandato, logo depois do filho, Álvaro.

Caso mais grave foi o de Delfim Moreira: ele entrou no lugar de Rodrigues Alves antes mesmo de o político paulista assumir seu segundo mandato - ele morreu na epidemia de gripe espanhola que devastou o planeta durante a I Guerra Mundial. Assumiu, mas não governou, por causa de seus problemas mentais - a administração do Brasil em 1919, na prática, ficou a cargo de Afrânio de Melo Franco, ministro de Obras e Viação, no período chamado por historiadores de "regência republicana".

Os vices não foram chamados a sair da sombra no restante da República Velha - que terminou quando foi assassinado o candidato a vice de Getúlio Vargas, João Pessoa, governador da Paraíba, crime que deflagrou a revolução de 1930. Foi o início do predomínio de Getúlio na política brasileira, que só terminaria em 1954, quando ele se matou - e assumiu o seu vice, Café Filho. Café foi escolhido vice de Getúlio também por um arranjo entre partidos: foi uma condição imposta por Adhemar de Barros para apoiar a volta do caudilho gaúcho à Presidência.

O próximo vice a assumir foi João Goulart, que entrou no cargo com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Ele não havia sido eleito na mesma chapa de Jânio: a legislação eleitoral previa votações separadas para presidente e vice. Herdeiro de Getúlio, Jango era malvisto pelos conservadores e militares e, para tomar posse, teve de aceitar a mudança do regime de governo - o Brasil foi parlamentarista de 1962 a 1963.

No ano seguinte, Jango foi deposto pelo golpe militar, e foi no regime de exceção que Pedro Aleixo entrou para a História como o vice que não entrou para a Presidência: com o afastamento de Costa e Silva por uma trombose em 1969, foi impedido de assumir pela junta militar que governou o Brasil até a posse do próximo general-presidente, Emílio Garrastazu Médici.

O fim da ditadura foi outro episódio que demonstra a importância dos vices-presidentes: eleito, Tancredo Neves adoeceu, e José Sarney assumiu em seu lugar. O próximo presidente também não terminaria o mandato: Fernando Collor de Mello sofreu um processo de impeachment e foi substituído pelo vice, Itamar Franco.

"Tempo de TV virou uma espécie de ditadura"

Diante desta sequência de casos traumáticos em que os vices se tornaram os governantes, ainda assim José Serra (PSDB) terá como companheiro de chapa alguém que já foi chamado de despreparado para ser prefeito do Rio pelo seu próprio padrinho político, Cesar Maia. Dilma Rousseff (PT) escolheu um nome do PMDB, partido identificado com o fisiologismo e a corrupção. E Marina Silva (PV) optou por um empresário sem experiência política.

Para Isabel Lustosa, no caso de Guilherme Leal, foi a necessidade de Marina de se aproximar do setor produtivo. No caso de Indio da Costa e Michel Temer, pesou o tempo de televisão que os candidatos a presidente queriam de seus partidos aliados, o DEM e o PMDB:

- O tempo de TV virou uma espécie de ditadura - critica a historiadora.