Título: O real da oposição
Autor: Rothenburg, Denise
Fonte: Correio Braziliense, 22/06/2009, Política, p. 4

Em 1989, os colloridos apelaram e teve gente que acreditou. Da mesma forma, o PT diz agora que, se o futuro presidente não for aliado de Lula, virá o fim dos programas sociais.

Em 1994, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva acreditava que iria bombar na campanha presidencial. Fernando Henrique Cardoso tinha apenas 7% das intenções de voto e o PT pintou e bordou contra o Plano Real. Disse que era eleitoreiro, e dê-lhe críticas. Nada prestava para os petistas daqueles tempos. O eleitor, com cara de tô nem aí, meu bolso tá bom, elegeu Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, com medo de que os petistas acabassem com o Real que tanto criticavam. Lula só chegou à Presidência em 2002 porque, aos poucos, numa metamorfose ambulante, como o próprio presidente definiu, foi recuando das críticas e admitindo as maravilhas da estabilidade econômica.

Agora, em 2010, caberá ao PSDB mostrar aos eleitores que não vão acabar com o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Dil¿ops, Vida. Os tucanos estão hoje como o Lula de 94/98. Isso sem contar o desafio de fazer uma campanha contra um presidente que detém 80% de aprovação. A construção desse discurso ainda não está formulada dentro do PSDB. Os tucanos têm feito intermináveis reuniões para saber como furar o cerco que Lula tem feito em vários estados levando a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. E não acharam a poção mágica para reduzir essa popularidade.

Há um ponto que preocupa os formuladores do PSDB: a população mais pobre e mais volumosa começa a ver Dilma Rousseff como uma pessoa que pode ser o futuro Lula. E Dilma, que de boba não tem nada, tem dito que ela e Lula são quase a mesma coisa e não há diferença do ponto de vista de comandar o governo. E, em suas conversas internas, os tucanos e aliados usaram a seguinte expressão: ¿Se essa conversa colar no povão, lascou¿.

Para complicar ainda mais a vida dos tucanos, os petistas partem para um terrorismo que faz lembrar o do então candidato Fernando Collor, em 1989. Naquela primeira eleição direta pós-ditadura, os colloridos apelaram, dizendo: ¿Olha, eleitor, se Lula vencer, seu terreno no Lago Sul irá abrigar 10 famílias¿. E teve gente que acreditou. Da mesma forma, o PT tenta convencer o eleitorado mais pobre de que, se o futuro presidente não for aliado de Lula, a torneira do Bolsa Família secará. Cabe ao PSDB dizer que isso não é verdade, da mesma forma que os petistas no passado trabalharam para desancar o discurso collorido. A maior preocupação (dos tucanos) é a de que, no caso de 1989, como a eleição estava em cima do laço, não houve tempo. Por isso, vão começar a agir desde já para evitar que a versão petista ganhe corpo.

Um dos pontos que o PSDB irá aproveitar ao longo dos próximos 15 dias para criar imagens que os coloquem como os pais dos programas sociais é o aniversário de 15 anos do Plano Real. O dèbut do Real começou a ganhar as páginas dos jornais ontem, na brilhante reportagem de Vicente Nunes, do Correio Braziliense.

Os políticos petistas que leram atribuíram o desenvolvimento de São Raimundo Nonato (PI) ao Bolsa Família e outros programas do governo Lula e, para manter uma expressão que eles sempre utilizam, o ¿resgate social¿. Não se cansam de afirmar que, se não fosse Lula, o vinho da estabilidade estaria vinagrado. Os tucanos ficam com o início da história, ou seja, sem a estabilidade, não haveria a perspectiva de recuperação social do município. A ideia é aproveitar e dê-lhe solenidade para colar os ganhos na coragem do governo anterior de implantar o plano econômico e, no embalo, tentar mostrar um projeto pós-Lula, um olhar para o futuro.

Até o momento, quem mais bem usou essa história de pós-Lula foi Aécio Neves, de Minas Gerais. José Serra, de São Paulo, não tira da cabeça a ideia de que só deve tratar desse tema e se colocar para valer como candidato a partir do ano que vem. Serra tem sido extremamente cuidadoso nas declarações sobre a sucessão presidencial. Até porque tem um problema: no momento em que anunciar uma candidatura presidencial, começa a guerra pela sua sucessão em São Paulo, entre os secretários e o prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab. E se você, leitor, pensar que FHC entrou na campanha em 1994 com 7% e terminou eleito, talvez Serra tenha razão. É cedo mesmo, até porque ele não quer deflagrar a sua sucessão em São Paulo. Mas essa é outra história.