Título: PT espera que Lula tire licença
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 06/07/2010, O País, p. 3

Apesar de Planalto negar, plano visa a socorrer Dilma se empate persistir

Ocomando da campanha presidencial do PT planeja reservadamente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tire licença do cargo em setembro para se dedicar à campanha de sua candidata, Dilma Rousseff. A licença acontecerá, dizem os petistas, se o cenário de empate nas pesquisas com o candidato tucano, José Serra, for mantido até agosto, depois do início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV.

Lula seria uma espécie de "plano B" para tentar desequilibrar o jogo a favor de Dilma. Fora da Presidência, ficaria colado nela nos eventos públicos, como comícios e outras atividades de campanha, para pedir votos para a petista sem risco de ser multado pela Justiça Eleitoral. Caso Dilma esteja na frente nas pesquisas no fim de agosto, Lula continuará no governo e fará campanha só depois do expediente (a partir das 18h) e nos fins de semana. A estratégia é tratada com cautela por dirigentes partidários, mas defendida abertamente por petistas e aliados.

- Fizemos uma avaliação política. Se necessário, Lula vai se licenciar. Vamos precisar estudar as pesquisas. Se a eleição tiver empatada em agosto, vamos usar o plano B, no caso, Lula - afirma o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), amigo do presidente. - Quero que o Lula entre na campanha para não ter dúvida e resolver logo a parada no primeiro turno. Com isso, ficamos livres no segundo turno para ajudar nossos candidatos nos estados.

A licença do presidente também é admitida por integrantes da campanha e defendida fortemente por aliados. A avaliação é que a presença de Lula no palanque muda o cenário da disputa, principalmente porque ele está no auge da popularidade. Aliados acham que Lula pode compensar a inexperiência de Dilma em campanhas eleitorais.

- A presença integral de Lula na campanha pode ser decisiva para ganhar no primeiro turno. Há necessidade da licença do governo para se dedicar à eleição de Dilma. Por que temos que correr o risco de nova campanha no segundo turno? A continuidade do projeto é muito importante - disse o líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN).

No início do ano, quando a coluna Panorama Político, do GLOBO, informou que estava em estudo a licença de Lula, o Planalto negou a informação. Oficialmente, integrantes do governo continuam negando. Mas já admitem uma mudança de planos.

- É cedo para afirmar se o presidente Lula vai ou não tirar licença. Se a Dilma tiver na bica para ganhar, não tem necessidade. Mas se a Dilma precisar, ele vai fazer isso - admitiu o líder do governo na Câmara e um dos coordenadores da campanha de Dilma, Cândido Vaccarezza (PT-SP).

"Carta que você não diz que tem"

Segundo petistas, o presidente está com o caminho livre para tirar licença em setembro. No fim de março, Lula pediu ao vice-presidente, José Alencar, que não concorresse ao Senado por Minas, e foi atendido. Se Alencar disputasse, não poderia assumir o governo nas ausências de Lula, ou ficaria inelegível. Como o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), também não poder assumir o cargo pelo mesmo motivo, a Presidência seria exercida na interinidade pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Integrantes do governo temiam o desgaste para a campanha da Dilma - no ano passado, Sarney foi protagonista da crise do Senado, com denúncias de nepotismo.

Integrantes da cúpula do PT e do Palácio do Planalto dizem que uma eventual licença do presidente Lula só será confirmada em cima da hora.

- Taticamente, a licença do presidente Lula é uma carta que você não conta que tem, joga na hora certa. Se alguém está falando, não devia. Não vamos anunciar antes - disse o secretário de Assuntos Institucionais do PT, deputado Geraldo Magela (DF).

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