Título: A primavera da transição em Havana
Autor:
Fonte: O Globo, 11/07/2010, O Mundo, p. 34

César González-Calero

A transição em Cuba começou dias atrás. Quatro anos depois que Fidel Castro foi diagnosticado com um grave "segredo de Estado" no estômago, o regime lançou nas águas turquesas do Caribe a primeira garrafa com uma mensagem política contundente: chegou ao ponto final aquela Primavera Negra de 2003, na qual dezenas de dissidentes foram condenados a longas penas na prisão. Abre-se assim uma nova etapa na ilha, onde o caminho, como sempre, ainda está cheio de incertezas.

Agoniado pelos "fantasmas" de Orlando Zapata (o dissidente morto em fevereiro) e Guillermo Fariñas (cuja vida ainda corre perigo), o general Raúl Castro decidiu que era hora de iniciar uma viagem que muitos pensavam que havia começado em 31 de julho 2006, quando os cubanos, com a ajuda de seu adoecido comandante em chefe, aprenderam a conjugar o verbo "delegar".

O gesto de Raúl é uma piscada à Igreja Católica por seu novo papel de interlocutor, e também ao governo espanhol, por sua paciência inesgotável como mediador. A presença em Havana do chanceler espanhol Miguel Ángel Moratinos revela que Madri também teve um papel importante no processo de diálogo iniciado há um mês e meio entre Raúl e a Igreja. Mas a mensagem que surgiu no Palácio da Revolução tem um destinatário: Barack Obama.

Desde que Obama chegou ao poder, Washington vinha clamando por algum gesto de Havana que pudesse sinalizar o avanço da normalização das relações - a um nível mínimo há meio século. O presidente americano deu o primeiro passo ao flexibilizar, no ano passado, as regras de viagem de cidadãos cubano-americanos à ilha e o envio de remessas. Mas Havana não se deixou iludir. Agora, Obama já tem um argumento de peso para dar mais outro passo para o diálogo sem ser devorado pelas críticas de falcões republicanos.

Como há 50 anos, Havana continua pensando em inglês e em qual será a reação do "império" diante de cada um de seus atos. E enquanto na Casa Branca as pessoas se entretêm analisando a mensagem, Raúl Castro, que retomou definitivamente a iniciativa política, ganha adeptos na União Europeia graças ao trabalho de mediação da Espanha.

A Igreja Católica cubana, que nos últimos anos mal tinha aberto a boca, também sai fortalecida após o histórico anúncio do regime. Em seu novo papel de interlocutora junto ao governo, a Igreja teve sorte por transmitir a mensagem das libertações.

Embora Raúl tenha minimizado o impacto da morte de Zapata, em fevereiro, após uma greve de fome prolongada, é certo que a condenação internacional que despertou - e, acima de tudo, a rejeição aberta de muitos intelectuais da esquerda no mundo - fez algo se mover em Havana. A escolha da Igreja Católica como interlocutor para abrir um processo de diálogo sobre os presos políticos não foi gratuita. Tratava-se de resolver problemas internos "entre os cubanos" mas, nos bastidores, moviam-se alguns atores externos.

Farto da repercussão pela morte de Zapata - diante do perigo que a história se repita com Fariñas e com outros 25 detidos doentes graves nos cárceres cubanos - o general decidiu fazer uma mudança de curso para ganhar algum ar político. A grave situação econômica que assola a ilha, com problemas de liquidez financeira e paralisação produtiva, também cobrou um pedágio de Raúl - que há quatro anos vem oferecendo promessas de mudança aos cubanos, mas as "reformas estruturais" de que falou pela primeira vez em julho de 2007 ainda não se concretizaram.

Para o opositor Oscar Espinosa Chepe, membro do Grupo dos 75 e libertado em 2004, a sensação de estar encurralado econômica, político e socialmente tem sido fundamental para Raúl Castro concordar com a libertação de presos.

"É a consciência do fracasso econômico, político e social que leva o regime a dar esse passo. Raúl Castro sabe que tem de fazer mudanças radicais na ilha, mas é pressionado pelos setores mais ortodoxos do governo, que ainda são muito fortes", disse Espinosa em entrevista, por telefone, de Havana.

Espinosa acredita que as libertações abrem um leque novo de possibilidades na ilha.

"Dentro do Partido Comunista há uma forte tendência às mudanças, e esta decisão vai pavimentar o caminho para outros passos que devem ser dados no campo das reformas políticas, sociais e econômicas", disse o economista, entusiasmado com a "excelente notícia" sobre os presos. Embora uma centena de dissidentes ainda continue na prisão, a libertação dos últimos membros do Grupo dos 75 tem um marcado componente simbólico, dado que sua causa deu a volta ao mundo desde que começou a ser defendida nas ruas de Havana por suas mulheres: as célebres Damas de Branco, que há anos fustigam o regime.

Em março de 2003, Cuba estava imersa na "batalha ideológica" e na recentralização econômica impulsionadas por um Fidel Castro mais vigoroso do que nunca. As operações contra os dissidentes e o fuzilamento de três sequestradores de uma lancha de passageiros foram sua resposta aos que pediam mais abertura. Três anos depois, o chefe da Revolução Cubana caía gravemente enfermo e delegava o poder a seu irmão Raúl. A transição parecia iminente. Mas em Cuba os tempos políticos têm seu próprio ritmo. Um ritmo sem urgências.

CÉSAR GONZÁLEZ-CALERO é colunista do "La Nación", que pertence ao Grupo de Diarios América (GDA)