Título: Um olho na TV, outro no aeroporto
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 13/07/2010, O Mundo, p. 24
Fidel dá 1ª entrevista em 4 anos, enquanto dissidentes deixam Cuba
Pelo menos sete dissidentes cubanos começam hoje uma nova etapa de sua vida, do outro lado do oceano. Eles são os primeiros de um grupo de 52 presos políticos que o governo cubano se comprometeu a libertar em quatro meses, após um acordo com a Igreja Católica e o governo espanhol, e que chegam a Madri como refugiados políticos. Depois de um dia de forte expectativa - em que um telefonema definia quem partiria, e novos nomes de presos a serem liberados eram anunciados - as atenções da imprensa internacional se concentravam, à noite, no aeroporto de Havana, de onde os dissidentes e suas famílias deveriam seguir para o exílio. Os olhos dos cubanos, no entanto, iam em outra direção. Pela tela da TV entrava em suas casas Fidel Castro, ressurgindo numa entrevista após um longo período de convalescença.
O tema da entrevista de Fidel - anunciada como a primeira ao vivo em quatro anos - não foi a libertação dos dissidentes ou a crise econômica que o país atravessa. Fidel falou dos riscos de uma guerra no Oriente Médio e acusou os Estados Unidos de afundar um navio sul-coreano, num episódio que elevou a tensão entre as duas Coreias. Mas a mensagem parecia ser outra. Apesar da voz fraca, o ex-líder cubano parecia bem disposto no programa "Mesa Redonda". Seu ressurgimento tanto poderia ser uma forma de desviar a atenção dos dissidentes que partiam para o exílio, quanto uma maneira de mostrar ao país que está lúcido e a par das transformações que Cuba enfrenta.
Para ex-preso, reforma é crucial
O líder cubano se afastou da vida pública após uma misteriosa doença que o obrigou a uma cirurgia intestinal, em agosto de 2006. De tempos em tempos, ressurgia em fotos, mas somente neste fim de semana foi visto novamente em público, em Havana. E embora a entrevista tenha sido anunciada como ao vivo, não houve um reforço da segurança perto da emissora, o que levantou suspeitas de que seria gravada.
Héctor Palacios, membro do Grupo dos 75 (opositores presos na Primavera Negra, de 2003, e do qual fazem parte os 52 a serem soltos), vê a libertação dos opositores como o passo mais sério dado pelo governo dos irmãos Castro. Em entrevista ao jornal espanhol "El País", o dissidente, solto em 2007 por problemas de saúde, advertiu que se Cuba não passar por "reformas (econômicas), a revolução não dura um ano mais". "No meu ponto de vista, é o passo mais sério que o governo deu nos últimos 50 anos em busca de um acordo nacional, o que pode abrir uma nova etapa", disse Palacios.
Seis detidos não querem deixar Cuba
Para as famílias dos dissidentes, foi um dia de expectativas. Do anúncio do acordo, na quarta-feira, até ontem, os nomes dos primeiros presos que seriam soltos e enviados para a Espanha como refugiados saltaram de cinco para 20. Destes, cerca de sete, pelo menos, embarcariam ontem, acompanhados por dezenas de parentes. Os familiares dos demais aguardavam a ligação das autoridades cubanas avisando sobre sua partida.
- O secretário do cardeal me disse para deixar tudo pronto. Meu marido já fez os exames de saúde ontem (domingo), mas ainda não recebi a ligação oficial - contou ao GLOBO Celia Costa, mulher de Blas Giraldo Reyes Rodríguez, um dissidente diabético e que se encontra com a saúde muito debilitada.
Reunidos num hospital penitenciário nos arredores de Havana, os presos ainda seriam entrevistados por funcionários do consulado espanhol antes do embarque em voos da Air Europa e da Iberia, para mostrar que não foram obrigados a partir. Mas parentes de alguns dissidentes contavam ter ouvido das autoridades que a partida seria para sempre.
Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, uma ONG cubana não reconhecida pelo governo, informou que pelo menos seis presos não teriam concordado em deixar o país, e não há informações sobre o que lhes aconteceria.
- Supomos que serão postos em liberdade nos próximos três ou quatro meses - disse Elizardo.
Pelo acordo, os que concordaram em partir seguem primeiro para a Espanha, podendo depois decidir se vão para outros países. Estados Unidos e Chile também ofereceram asilo e, segundo a blogueira Yoani Sánchez, alguns preferiam seguir para Santiago. Para voltar a Cuba necessitariam de uma permissão. Segundo o chanceler espanhol Miguel Ángel Moratinos, o governo vai procurar um lugar para instalar os cubanos e ajudar a regularizar sua situação.
Entre os 20 dissidentes de malas prontas, pelo menos dez são jornalistas, como Ricardo González Alfonso, correspondente da organização Repórteres Sem Fronteiras, que aos 60 anos sofre de vários problemas de saúde e foi operado durante sua permanência na prisão.