Título: O futuro nos desafia
Autor: Godoy, Fernanda
Fonte: O Globo, 23/07/2010, O País, p. 3

A investidores nos EUA, Marina defende reformas, corte de gastos e investimento em educação

MARINA SILVA discursa para cerca de 200 banqueiros e executivos de instituições financeiras em Nova York: compromisso com estabilidade econômica

Em discurso para investidores em Nova York, no qual expôs uma plataforma de reforma fiscal e redução dos desperdícios do governo, a candidata do PV a presidente, Marina Silva, se mostrou afinada com algumas das principais preocupações da comunidade financeira internacional, entre elas o risco de superaquecimento da economia brasileira e o desequilíbrio dos gastos do governo. Marina afirmou que o compromisso com a estabilidade macroeconômica é um valor inegociável.

A exposição, de 33 minutos, destacou a necessidade de o país investir em educação e inovação científica, naquilo que ela chamou de infraestrutura humana.

¿ A formação de capital humano é o nosso maior desafio civilizatório. Para estabelecer uma ponte entre o Brasil do presente e o do futuro, é imprescindível uma educação de qualidade ¿ afirmou a candidata.

Marina iniciou sua fala, dirigida a cerca de 200 banqueiros e executivos de instituições financeiras, em evento promovido pela BM&F Bovespa com os candidatos a presidente do Brasil, fazendo uma reconstituição dos avanços econômicos e sociais do país nos últimos 16 anos. Destacou a estabilização da economia e as políticas de redistribuição de renda do governo Lula, e também a capacidade do Brasil de assimilar crises.

Parecia o discurso de uma candidata governista até que ela passou a falar do ¿risco da complacência¿, ou seja, do risco de se contagiar por uma maré de otimismo e deixar de fazer as reformas necessárias, desperdiçando a oportunidade de garantir crescimento sustentado no futuro. Este é um tema caro aos investidores, que veem necessidade de reformas.

¿ O maior risco que corremos hoje é a complacência. É confundir o sucesso no curto prazo com a construção de um futuro generoso e sustentável no longo prazo. Não devemos, é claro, ser pessimistas, mas também não podemos nos deixar embalar pela crença em atalhos que nos distraiam e façam perder de vista os importantes desafios que temos à frente. Apesar dos importantes avanços dos últimos anos, os problemas de fundo do nosso desenvolvimento não desapareceram. Eles permanecem tão desafiadores como sempre foram ¿ disse Marina.

Críticas à proposta do Código Florestal

A candidata usou a expressão ¿dreno fiscal¿ para se referir ao exagero em gastos correntes e defendeu uma reforma tributária que permita ao Estado brasileiro recuperar sua capacidade de investimento. A senadora também ganhou pontos ao defender mudanças que melhorem o ambiente de negócios no Brasil ¿para mobilizar o investimento privado com critérios claros de regulação¿. Na sessão de perguntas e respostas, Marina ganhou fortes aplausos ao condenar a proposta para o novo Código Florestal em tramitação no Congresso, com base no argumento de descumprimento das regras.

¿ Não posso sair do lugar onde sempre estive nos últimos 52 anos: na defesa da Amazônia. Mas aqueles que cumpriram as leis e acreditaram que o governo estava falando sério não merecem ver seus concorrentes que desmataram ilegalmente serem premiados com o perdão das multas ¿ criticou a ex-ministra.

A questão ambiental foi explorada com habilidade pela candidata ao responder a perguntas sobre o aumento do custo dos empreendimentos devido a licenças ambientais e sobre o marco regulatório da exploração do petróleo do pré-sal. Marina se valeu do exemplo da catástrofe ambiental causada pelo vazamento de óleo no Golfo do México para argumentar que o custo da precaução é menor do que os custos ambientais, sociais e econômicos de um desastre como esse.

A candidata tropeçou algumas vezes na leitura do discurso, mas depois explicou que, devido a um problema de visão, a iluminação muito forte do salão de conferência havia atrapalhado sua leitura. Nas respostas, mostrou desenvoltura, falando sobre autonomia do Banco Central, transparência, meio ambiente, programas sociais. Elogiou seguidas vezes o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, em cuja campanha bem-sucedida busca inspiração. Marina disse que as políticas de transparência, com os dados brutos do governo sendo colocados à disposição da população na internet, são um modelo a ser seguido.

Sustentabilidade e compromisso ético

Sempre acompanhada de seu candidato a vice, Guilherme Leal, do economista Eduardo Giannetti da Fonseca e do vice-presidente do PV, Alfredo Sirkis, Marina ainda respondeu a perguntas de repórteres e evitou críticas ao PT, mas sempre marcando diferenças de posição. Diante de uma pergunta sobre a polêmica em torno da eventual ligação entre o PT e as Farc, levantada pelo candidato a vice do tucano José Serra, Indio da Costa, disse:

¿ Não faço coro a essas críticas ao PT, até porque estive no partido por 30 anos e nunca soube disso. Mas não podemos é ter complacência, por razão ideológica, com nenhuma articulação política que viole a democracia. Nossos valores políticos de apego à democracia não podem ser relativizados .

Entre as palavras mais usadas pela candidata verde, ousadia e ética se destacaram. Marina disse que o Brasil precisa assumir seu papel de líder das mudanças no século XXI.

¿ O futuro nos desafia a uma nova síntese: a sustentabilidade socioambiental. O Brasil precisa crescer, mas crescer com qualidade. E crescer com qualidade significa, antes de mais nada, ter a visão, a ousadia e o compromisso ético para se reinventar. Reinventar-se com o que temos de melhor, com a valorização dos dois ativos de rara potência de que dispomos: a diversidade sociocultural e a diversidade ambiental.