Título: As relações terão que recomeçar do zero
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 23/07/2010, O Mundo, p. 37

O pesquisador e sociólogo colombiano Alfredo Rangel, da Fundação Segurança e Democracia, diz que a decisão de Hugo Chávez apenas formalizou uma ruptura que já havia, mas acha que a situação pode ser revertida depois que o novo governo da Colômbia tomar posse.

O GLOBO: Que consequências esta ruptura trará para Venezuela e Colômbia?

ALFREDO RANGEL: Acho que vai prejudicar setores diplomáticos, consulares e negociações bilaterais. Mas a ruptura apenas formalizou algo que já acontecia: os países brigam há muito tempo, o comércio entre eles caiu 70%, a Colômbia sabe que guerrilheiros vivem na Venezuela e que o país não luta contra isso.

As relações terão que recomeçar do zero no dia 7, quando o presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, tomar posse.

O senhor é defensor das políticas de Álvaro Uribe. Ele agiu certo ao apresentar agora essas denúncias, a duas semanas de deixar o governo?

RANGEL: As provas que ele apresentou são realmente novas e as acusações contra a Venezuela, graves. Mas é evidente que Uribe quis mostrar seu desacordo com Santos, que defende normalizar as relações com o vizinho. Os dois querem acabar com o terrorismo e o narcotráfico, só que Uribe limpou a casa internamente antes de ir para a fronteira. Não se preocupou em contar com a colaboração da Venezuela.

Santos pensa diferente e acho que solucionar esta questão com Chávez será uma das prioridades e se ele conseguir uma das vitórias de seu governo.

Acho que ele consegue.

O Brasil e a Unasul poderiam ajudar de alguma maneira? A questão pode causar alguma tensão regional?

RANGEL: A Colômbia está distante do Brasil e, por tabela, da Unasul. Tanto que Santos que está num giro pela América Latina não vai a Brasília. Caracas tem mais aliados na região do que Bogotá. Seria bom o Brasil começar a trabalhar para equilibrar este quadro. Mas não acredito que este novo capítulo da crise se estenda aos vizinhos.