Título: Ruptura às vésperas de posse
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 23/07/2010, O Mundo, p. 37
Acusado de acolher guerrilha, Chávez corta relações com Colômbia e ordena saída de diplomatas CARACAS e WASHINGTON
Aproveitando-se da visita do técnico argentino Diego Armando Maradona e dos holofotes , o presidente venezuelano, Hugo Chávez, anunciou ontem o rompimento total das relações diplomáticas com a Colômbia. O presidente retirou os funcionários, fechou sua embaixada em Bogotá e deu um prazo de 72 horas para que os colombianos façam o mesmo. Apesar da relação conturbada entre os presidentes Chávez e Álvaro Uribe, que já congelaram relações diplomáticas e convocaram embaixadores nos últimos anos, os dois países não haviam chegado à ruptura. Chávez decretou ainda alerta máximo nas fronteiras: Não temos outra escolha senão, por dignidade, romper totalmente nossas relações com a nossa nação irmã Colômbia disse Chávez. Uribe é um doente e está cheio de ódio.
Nós não aceitaremos nenhum tipo de agressão ou violações à nossa soberania.
Eu teria que ir chorando para uma guerra na Colômbia, mas teria que ir.
Driblando comentários políticos, Maradona distribuiu sorrisos e abraços. Em 2002, aliás, Maradona levou milhares ao delírio quando testemunhou, abraçado ao presidente, uma extravagância de Chávez: num estádio de futebol na Argentina, durante um encontro de cúpula dos países latino-americanos, mandou a Alca al carajo.
A Venezuela pediu reunião de emergência da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para denunciar graves agressões do governo da Colômbia.
Segundo o promotorgeral colombiano, Guillermo Mendoza Diago, o país já considera levar o vizinho ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, por abrigar terroristas.
Em Washington, o clima pesou na reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), com os embaixadores de Venezuela e Colômbia protagonizando bate-boca.
Usando um tom enérgico com direito a murros na mesa , o embaixador colombiano, Luis Alfonso Hoyos, disparou ataques contra o governo Chávez por mais de uma hora, intercalados com a exibição de fotos, vídeos e mapas como provas da presença estimada de 1.500 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Liberação Nacional (ELN) em território venezuelano.
Com imagens de satélite e coordenadas geográficas, Hoyos tentou comprovar a existência de três acampamentos rebeldes na Venezuela, um deles a apenas 23 quilômetros da fronteira colombiana.
Ele exigiu uma atitude real e prática de Caracas e a formação de uma comissão internacional, em até 30 dias, para averiguar denúncias de 87 acampamentos.
Em vez de acusar nosso governo de criminoso e mafioso, a Venezuela deveria combater os criminosos que usam seu país como base para nos atacar. As evidências foram mostradas hoje, não se trata de montagem ou de filmes de Hollywood alegou.
Apesar da fala mais pausada, o embaixador da Venezuela, Roy Chaderton, desqualificou as provas apresentadas, chamando-as de curiosas e discutíveis. E ironizou o colega colombiano: A montanha pariu um rato.
Chaderton comparou as denúncias do presidente Álvaro Uribe, a um caubói que sai do salão atirando.
Foi o capricho de um presidente tomado de raiva que não tem capacidade de controlar suas emoções e com a ideia de concluir uma tarefa antes de ir embora: acabar com Chávez! Ele quis se despedir destilando seu ódio pessoal acusou Chaderton.
O venezuelano contra-atacou ao sugerir uma comissão internacional para inspecionar a base militar americana na Colômbia e classificou a sessão da OEA como uma ardilosa maquinação, tramada junto com os EUA.
O governo do presidente Uribe gosta desse circo midiático, que tem o apoio do Departamento de Estado americano e, principalmente, do Pentágono.
Infelizmente disparou.
Enquanto os diplomatas presentes questionavam os motivos de Uribe partir para o ataque às vésperas de deixar o cargo, o embaixador brasileiro na OEA, Ruy Casaes, lamentou o rompimento de relações diplomáticas entre os dois países.