Título: Risco de bolha no setor de minério de ferro
Autor: Magalhães-Ruether, Graça
Fonte: O Globo, 25/07/2010, Economia, p. 38

Presidente mundial da ThyssenKrupp critica mineradoras, como a Vale, e diz que empresa investiu G 5 bi no país

ENTREVISTA

BERLIM. O presidente da ThyssenKrupp, uma das maiores empresas de siderurgia da Europa, Ekkerhard Schulz, alertou para o perigo de uma bolha gigantesca no setor de minério de ferro, onde as três grandes Rio Tinto, BHP Billiton e a brasileira Vale usaram o seu poder de monopólio para forçar uma explosão de preços da matéria-prima no mercado internacional. Em entrevista ao GLOBO, Schulz, de 69 anos, afirmou que a Comissão Europeia investiga o caso. Onze anos após coordenar a fusão da Thyssen com a Krupp, Schulz deixa o cargo de presidente em janeiro do ano que vem, permanecendo apenas no conselho fiscal da empresa. Ele disse que, com a crise do euro, a ThyssenKrupp expandiu os investimentos nos mercados emergentes. Em junho passado, ele inaugurou, com o presidente Lula, a nova central de produção da empresa em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Para Schulz, os investimentos alemães, de cerca de C 5 bilhões, são a metade da quantia investida pela empresa no mundo inteiro nos últimos anos.

Fomos recebidos no Brasil de braços abertos, elogiou o executivo alemão, doutor em ciências da siderurgia pela Universidade de Clausthal, na Alemanha

Correspondente

O GLOBO: Nos anos 80, a crise do aço era tema constante nos noticiários de economia. Quando os negócios no setor voltaram a ser interessantes?

EKKERHARD SCHULZ: A crise do aço dos anos 80 foi causada por excesso de capacidade. Na Europa, como muitas empresas estavam nas mãos do Estado, os altos subsídios impediam uma adaptação à demanda real.

Hoje quase todas as empresas do aço são privadas. Desde o ano 2000, a produção global do aço começou a crescer em 7% ao ano, sobretudo por causa do desenvolvimento econômico em China, Índia e outros países emergentes. Estou seguro de que, após um certo recuo causado pela crise econômica mundial, voltaremos em breve ao caminho do crescimento. O aço é o material industrial número um e continuará sendo no futuro. Seu potencial de inovação não foi esgotado. Metade dos cerca de 2.500 tipos de aço foi desenvolvida nos últimos cinco anos.

O que explica o forte aumento dos preços do aço no mercado mundial?

SCHULZ: Dependemos de grandes quantidades de matériasprimas.

Para uma tonelada de aço, precisamos de duas toneladas de material, sobretudo o minério de ferro, matéria-prima que teve um enorme aumento de preços nos últimos anos.

Os investimentos em Santa Cruz foram planejados há alguns anos. Na crise econômica, sua empresa chegou a hesitar sobre esse projeto?

SCHULZ: Primeiro gostaria de falar sobre o nosso orçamento de investimentos. Em 2005, o conselho fiscal da ThyssenKrupp para o setor do aço aprovou um volume de investimentos de C 10 bilhões. Desse total, C 5,2 bilhões foram aplicados na siderúrgica do Brasil.

A nova siderúrgica de Santa Cruz, no Estado do Rio, que inaugurei com o presidente Lula no dia 18 de junho, é a base para a estratégia de crescimento da ThyssenKrupp no setor do aço. Vamos ter no Brasil uma produção de alta qualidade e eficiente em termos de custos para os mercados da União Europeia (UE) e do Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte). A situação da economia mundial não mudou a nossa estratégia, que é correta. E todos os indicativos confirmam que em três anos a conjuntura mundial vai voltar a ser o que era antes da crise.

Permita-me também uma observação: somos bastante gratos pelo apoio que tivemos da política e da administração no Brasil para esse projeto. Fomos recebidos no Brasil de braços abertos. Alta tecnologia e padrão ecológico são para nós uma exigência.

A ThyssenKrupp já trabalha com lucro no Rio?

SCHULZ: O Brasil ocupa o primeiro lugar para a ThyssenKrupp na América do Sul. Temos 14 mil pessoas trabalhando nas nossas subsidiárias brasileiras.

O volume de negócios no Brasil é atualmente de C 1 bilhão. No ano passado, tivemos um crescimento de 13%. Todas as nossas filiais brasileiras trabalham com lucro. Para a nova empresa, a ThyssenKrupp CSA Siderúrgica do Atlântico, há primeiro custos. Mas estou convicto de que, quando atingir a capacidade completa de produção, vai contribuir de forma positiva para o resultado da empresa.

Com a crise do euro, cresceu o interesse pelos emergentes?

SCHULZ: A crise do euro é uma crise de endividamento de alguns países, que teve como efeito uma desvalorização do euro em relação ao dólar. A ThyssenKrupp resolveu há alguns anos consolidar sua posição nas nações emergentes. Países emergentes são países de crescimento.

Queremos participar disso e ajudar essas nações a desenvolverem suas economias.

A Siderúrgica do Atlântico é o maior investimento industrial no Brasil dos últimos dez anos e, ao mesmo tempo, a primeira grande siderúrgica a ser construída no Brasil desde meados dos anos 80.

Na sua opinião, a China é atualmente um dos motores da economia mundial?

SCHULZ: O alto crescimento da China até no ano da crise, 2009, de quase 9%, teve um efeito de estabilização para a economia mundial. Mas a China não é forte o bastante para ser chamada de motor da economia mundial. Traduzindo em números: a participação da China no PIB (Produto Interno Bruto) do mundo é de cerca de 9%. Em contrapartida, a zona do euro está com 21%, e os Estados Unidos, com quase 25% do PIB do mundo. Além disso, a economia chinesa está fortemente orientada às exportações e, por isso, depende demais da situação nos grandes países industriais.

O senhor afirmou recentemente em uma entrevista a uma revista alemã que a Comissão Europeia estaria examinando possíveis acordos de preços entre os produtores de minério de ferro. O que a UE poderia fazer para reduzir os preços da matéria-prima?

SCHULZ: Levando em consideração a concentração do mercado, é difícil de se explicar os recentes aumentos de preços no mercado de minério de ferro. Esperamos que a Comissão Europeia intervenha contra isso caso descubra indícios de acordo de preços entre os fornecedores do minério.

O poder de mercado demonstrado pelos três grandes fornecedores será levado em consideração para a planejada fusão da Rio Tinto com a BHP Billiton na Austrália.

Qual é a participação hoje dessas três empresas no mercado mundial?

SCHULZ: É bastante alta e revela estrutura de oligopólio.

Vale, Rio Tinto e BHP Billiton dominam juntas 70% do mercado. E elas usam esse poder quando ditam os preços, como aconteceu recentemente, em abril. Vejo com preocupação o plano de fusão da Rio Tinto com a BHP Billiton na Austrália. Com isso, o mercado mundial vai ser controlado por duas gigantescas empresas. Contra isso, exigimos que sejam seguidas as regras de concorrência.

Como já disse, apoiamos o projeto da Comissão Europeia de pôr essa planejada fusão sob exame.

Mas a concentração ocorre também no caso das siderúrgicas, ou não?

SCHULZ: A concentração no caso da indústria do aço não é tão grande quanto a que ocorre com os fornecedores de minério de ferro. As cinco maiores detêm 20%. No caso da indústria automobilística, por exemplo, é de 50%. Necessidade de concentração existe na China, onde precisam ser criadas grandes unidades de produção para que possam ser retiradas do mercado unidades pouco econômicas e, além disso, com um baixo padrão de meio ambiente.

Qual é o papel dos especuladores? Eles poderiam influenciar no preço do minério, tal como ocorre no caso do petróleo?

SCHULZ: No passado, sempre fechamos acordo anuais calculáveis, onde o preço era definido para todo o tempo de duração do acordo, com os fornecedores de minério de ferro. Agora, as três empresas que dominam o mercado começaram, de repente, a nos ditar acordos trimestrais. O preço é redefinido em todo trimestre, dependendo da flutuação do mercado. O novo sistema de preços nos tira a base de cálculo, de modo que não conseguimos mais fechar acordos de preços de longo prazo com os nossos clientes.

Com a orientação no mercado spot, onde são comercializadas apenas pequenas quantidades de minério de ferro, são abertas portas e portões para os especuladores e manipuladores.

Há a ameaça de uma gigantesca bolha de preços no mercado de matériasprimas.