Título: Favela-Bairo: problemas além da conservação
Autor: Motta, Cláudio; Magalhães, Luiz Ernesto
Fonte: O Globo, 28/07/2010, Rio, p. 16

Ladeira dos Funcionários, uma das primeiras beneficiadas, sofre até hoje com tráfico

ESGOTO AINDA corre a céu aberto na Quinta do Caju, beneficiada com obras de urbanização durante a primeira etapa do programa Favela-Bairro

A prefeitura terá muito trabalho pela frente para cumprir a promessa de recuperar a infraestrutura e implantar choque de ordem nas comunidades urbanizadas pelo Favela-Bairro. Em algumas, os problemas se estendem à segurança. Líderes comunitários do Caju desaconselharam ontem repórteres do GLOBO a percorrerem as ruas da Ladeira dos Funcionários, uma das primeiras urbanizadas pelo projeto Favela-Bairro, ainda na década de 90. A área está sob o domínio do tráfico e o ambiente é tenso devido a conflitos recentes com a PM.

Os problemas, no entanto, podem ser observados mesmo da Rua Carlos, o principal acesso do bairro. Apesar de um Posto de Orientação Urbanístico e Social (Pouso) ser responsável por monitorar comunidades do bairro, há prédios que chegam ao quarto e quinto pavimentos, embora o gabarito estipulado seja de dois. Há alguns meses, a pista começou a afundar bem em frente à comunidade. Segundo a líder comunitária Maria de Fátima da Silva Alves, de 48 anos, a rede de esgoto construída durante o Favela-Bairro está afundando juntamente com a pista.

¿ A comunidade foi abandonada após as obras ¿ disse ela.

A um quilômetro dali, escondida pelos muros do Parque de Material Eletrônico da Marinha, os moradores da Quinta do Caju também têm suas reclamações em relação à ausência do poder público. A favela também recebeu obras do Favela-Bairro 1 que precisam de reparos A principal reclamação é em relação à rede de esgoto, que não atende à demanda.

Famílias até hoje vivem em barracos construídos na encosta

Há 13 anos, 846 famílias comemoraram o fim das obras. Hoje já são mais de mil. Algumas vivem em barracos construídos na encosta. A presidente da Associação de Moradores local, Ester Real Duarte, reclama da ineficácia do Pouso, que não embargou obras irregulares. Um imóvel onde, pelo projeto original, deveriam ser desenvolvidos projetos sociais e geração de renda, foi invadido. Os grileiros alugaram os espaços para comerciantes e uma igreja evangélica. No parquinho infantil, com mato crescido, os brinquedos estão quebrados. Mas os moradores guardam na memória a última vez que o poder público apareceu. Técnicos da prefeitura estiveram no local no início do ano, com assessores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que financiou o projeto.

¿ Na véspera (da visita) instalaram quatro caçambas de lixo e limparam o mato da quadra esportiva ¿ contou a vice-presidente da Associação de Moradores, Elaine de Souza.