Título: Lula nega influência no negócio, mas premier de Portugal relata diálogos
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 29/07/2010, Economia, p. 23

INVASÃO IBÉRICA: Sócrates diz que acordo aprofunda presença portuguesa

Presidente brasileiro diz que empresa permanecerá "brasileira da Silva"

BRASÍLIA e LISBOA. Ao comentar o acordo que resultou na compra de participação na Oi pela Portugal Telecom (PT), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou que tenha exercido qualquer tipo de influência na operação. No entanto, o primeiro-ministro português, José Sócrates, disse ontem, segundo a agência Lusa, que vinha conversando com o presidente brasileiro sobre o acordo entre a PT e a Oi. Sócrates elogiou Lula, afirmando que sempre apoiou a presença da PT no mercado brasileiro e defendeu um projeto conjunto na área de telecomunicações.

Já Lula disse que a Oi continuará sendo nacional, pelo menos até o fim de seu mandato, em dezembro. Ele acrescentou que a compra será um bom negócio para o Brasil e que acredita que a incorporação do grupo português permitirá a criação da supertele projetada pelo governo.

- Primeiro, vamos só colocar as coisas nos seus devidos lugares. O Brasil não pode, nem poderia ter, nenhuma influência nas negociações entre a Telefónica de Espanha e a Portugal Telecom. São dois países soberanos que, entre eles, fizeram um negócio que, pelo que vi hoje nos jornais, é muito dinheiro - afirmou o presidente brasileiro. - A única coisa que posso garantir é que, enquanto eu for presidente, ela continuará a ser uma empresa brasileira da Silva.

Sócrates disse à agência EFE que, ao trocar a Vivo pela Oi, a PT saiu lucrando:

- A entrada na Oi supõe adentrar na maior operadora de telecomunicações brasileira, com mais clientes e um faturamento maior do que Vivo.

Operação é bem recebida no Congresso Nacional

Lula disse que a empresa foi criada para "ajudar o Brasil na banda larga". Mas ressaltou que não participa das conversações.

- O que estou sabendo é que a parte brasileira e privada da Oi está negociando com a Portugal Telecom. E, da parte do governo, está sendo acompanhado pelo BNDES, pela equipe técnica e pelo presidente Luciano Coutinho. Eu não tenho mais informações que isso. Vamos deixar eles conversarem, porque, se quem não entende do assunto, como eu, começar a dar palpite, a gente pode atrapalhar um bom negócio - disse Lula.

O premier português disse à agência EFE que a PT fez bem em usar o direito a veto, mediante sua golden share na parceria com a espanhola Telefónica.

- Valeu a pena ter resistido às pressões dos mercados financeiros e dos interesses imediatos - disse Sócrates. - Com este acordo, salvamos a dimensão internacional da PT.

Para Lula, as partes envolvidas podem se beneficiar do acordo. Ao ser perguntado se o negócio será bom para o Brasil, ele disse que isso acontecerá, se houver a possibilidade de novos investimentos o Brasil. Ele ponderou, contudo, que a iniciativa privada e o BNDES, em nome dos fundos brasileiros, devem concordar com isto:

- Vai sair uma grande tele nacional, eu espero. Não espere que tudo aconteça em quatro meses que eu tenho de mandato. É um processo. O que nós precisamos é o seguinte: eu até, com o cuidado de quem é presidente do Brasil e quem conhece o que pode acontecer na Bolsa de Valores, tenho de deixar, primeiro, os donos das empresas negociarem o que quiserem negociar. A única coisa que nós vamos ter é a orientação do BNDES em nome da parte brasileira.

O ministro das Comunicações, José Artur Filardi, considerou positiva a operação, ressaltando que a movimentação de mercado é um avanço para o país, sobretudo se for confirmado que as empresas vão investir no Brasil. Para ele, a PT dará novo fôlego à operadora brasileira.

A operação foi bem recebida no Congresso. O deputado Paulo Bonhausen (DEM-SC) disse que a PT dará lastro para a Oi, principalmente havendo expansão internacional.

- Não adianta ter uma empresa endividada. Agora fica uma companhia luso-brasileira forte - afirmou.

O deputado Walter Pinheiro (PT-BA) lembrou que a Oi poderá cumprir as obrigações de instalação de banda larga, com a injeção de recursos. Já o deputado Júlio Semeghini (PSDB-SP) disse que há uma demonstração clara de que o mercado nacional é bem atrativo.

(*) Com agências internacionais