Título: Os novos gigantes da telefonia
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 29/07/2010, Economia, p. 23
INVASÃO IBÉRICA
Portugal Telecom adquire até 23,5% da Oi e vende controle da Vivo para Telefónica
Na maior operação envolvendo o setor de telefonia do Brasil desde a privatização do Sistema Telebrás em 1998, a Portugal Telecom (PT) está vendendo suas ações na Vivo e, com o dinheiro, comprando fatia na Oi (ex-Telemar). Em operação casada, a PT vai receber 7,5 bilhões (R$17,25 bilhões) da Telefónica pela sua fatia de 50% do controle da Vivo e investir até R$8,44 bilhões para se tornar a maior acionista individual da supertele - criada em 2009 após a compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi. Os portugueses terão entre 22,4% e 23,5% de participação no grupo Oi.
O anúncio do troca-troca de participações nas duas maiores operadoras de telefonia do país levou as ações ON (com direito a voto) da Vivo a subirem 10,77% e os papéis PN, 3,95%, na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) ontem. As ações do grupo Oi, por sua vez, registraram queda de até 15,99%, porque a entrada da PT virá acompanhada de um aumento de capital por um preço por ação abaixo do que vinha sendo negociado na Bolsa.
Segundo fontes, o Conselho de Administração do PT contou com a ajuda do governo brasileiro para costurar o acordo com a Oi. As conversas entre PT e Oi começaram segunda-feira passada, quando Zeinal Bava, presidente da PT, ligou para os acionistas controladores da Oi, a AG Telecom, comandada pela Andrade Gutierrez, e La Fonte Telecom, de Carlos Jereissati. O acordo foi desenhado entre a última quinta-feira e o domingo, em Lisboa.
Entrada da Oi será via BNDES e fundos
A PT será a maior acionista da Oi, mas não terá o controle. Os portugueses vão adquirir 10% da Telemar Participações, holding que controla o grupo Oi. Essas ações serão compradas do BNDES e de fundos de pensão de funcionários de estatais, como Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa), que juntos detêm 49,9% da holding do grupo Oi. AG Telecom, La Fonte e Fundação Atlântico (fundação dos funcionários da Oi), que têm o controle da empresa, com 50,1% das ações, não terão suas fatias alteradas.
- Quando optamos pelo acordo, decidimos que não haveria troca de controle e que haveria uma simetria. Ou seja, o que acontecesse aqui iria acontecer lá, na PT. Os acionistas da Telemar Participações têm pleno conhecimento do que está sendo acordado. Eles (BNDES e fundos de pensão) vão combinar entre eles a melhor solução - disse Pedro Jereissati, presidente da Telemar Participações e acionista do Grupo Jereissati.
Ao mencionar a simetria, Jereissati referia-se a outra cláusula do acordo que prevê que a Oi irá comprar da Telefónica os 10% das ações que os espanhóis têm na PT. Isso está previsto na negociação entre Telefónica e PT pelo controle da Vivo.
A tentativa dos espanhóis de adquirir o controle da Vivo se arrastava desde maio, quando ofereceram 5,7 bilhões pela participação da PT. A proposta foi rejeitada em três ocasiões até os espanhóis elevarem o valor para os 7,5 bilhões acertados ontem. O governo de Portugal chegou a usar suas golden shares (ações com poder de veto) para barrar o negócio por considerar o Brasil um país estratégico. E, por isso, a PT só vendeu sua parte na Vivo após acertar sua entrada na Oi.
Logo após anunciar o negócio com a Telefónica, o presidente da PT, Zeinal Bava, afirmou que a Vivo é passado e que a Oi é o futuro da companhia.
A Oi, por sua vez, ganhará fôlego para investir. Para o analista de telecomunicações da Ágora Corretora, Alan Cardoso, o negócio vai permitir "redução significativa do nível de endividamento". Em março, a dívida líquida da Oi era de R$21 bilhões.
- Depois da compra da Brasil Telecom, a Oi priorizou a geração de caixa. Agora, poderá voltar a investir, o que é fundamental para ser competitiva no setor.
Com 10% da PT, Oi cresce no exterior
Ele acrescenta que, para a Telefónica, deter o controle da Vivo permitirá uma oferta integrada de serviços, com telefonia fixa, telefonia móvel e internet de banda larga.
- A Telesp e a Vivo vão ter ganhos de sinergia como é a Oi hoje em dia.
O acordo anunciado ontem prevê uma intricada sequência de operações. A PT vai investir R$4,7 bilhões na Telemar Participações, que passará por aumento de capital. Do valor, R$1,512 bilhão será para alcançar os 10% na holding. Com o restante, a PT vai comprar 35% das ações na AG e na La Fonte, que também passarão por aumento de capital. Com isso, os portugueses passam a ser acionistas da Contax, maior empresa de call center do Brasil. Em seguida, Tele Norte Leste Participações (Grupo Oi) e Telemar Norte Leste (operadora Oi) passarão por aumentos de capital que vão movimentar, juntos, R$24 bilhões. Como os atuais acionistas têm direito de preferência, a PT pretende subscrever, caso haja sobras, até R$3,7 bilhões.
A PT terá direito a escolher dois membros para o Conselho de Administração da Telemar Participações e dois para Tele Norte Leste Participações. A Oi terá direito a um assento do conselho da PT. Com isso, consegue crescer na América do Sul e em países de língua portuguesa, onde a PT já está. A operação será paga em dinheiro e deve ser concluída até dezembro.
- Anteciparemos a internacionalização. Com o dinheiro, vamos investir mais em banda larga e telefonia móvel - afirma Luiz Eduardo Falco, presidente da Oi.
COLABOROU Lucianne Carneiro, com agências internacionais