Título: Déficit agora é menos preocupante
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Fonte: O Globo, 29/07/2010, Opinião, p. 6

O Brasil voltou a registrar déficits elevados nas transações correntes com o exterior, que contabilizam o movimento de mercadorias, rendas e serviços, entre os quais remessa de lucros e dividendos, pagamento e recebimento de juros, turismo, fretes, seguros, aluguéis de equipamentos, royalties pelo uso de marcas e patentes, direitos autorais, etc. No passado, esse déficit provocaria grande apreensão entre os agentes econômicos. Agora, a divulgação desses dados sequer mexeu com as cotações no mercado de câmbio. A razão para essa mudança de comportamento dos mercados está na capacidade de a economia brasileira honrar seus compromissos no curto, médio e longo prazos. Em passado não distante, para fechar as contas o país precisava estimular a contratação de empréstimos em moeda estrangeira, muitas vezes por iniciativa do setor público. Hoje, esse tipo de captação não é mais motivado por tal necessidade, mas sim pela conveniência dos contratantes. Se a taxa de juros for atraente, assim como as condições de pagamento, contrata-se o empréstimo.

O setor público reduziu consideravelmente sua dívida externa. Os vencimentos da dívida contraída pelo Tesouro se estendem por dez anos ou mais; ela é quase sempre renovada a custos decrescentes. Trata-se de um endividamento que se destina mais a manter abertas as portas do crédito externo para o país, além de estabelecer parâmetros para empresas brasileiras que desejem captar recursos lá fora. O volume de financiamentos obtido tem sido mais para rolagem do endividamento prestes a vencer, alterando pouco o estoque de endividamento.

Portanto, a dívida deixou de ser uma bomba de retardo, capaz de jogar a economia brasileira em situação de crise, como aconteceu na década de 80 (até o início dos anos 90).

O déficit em conta corrente - de 2,5% do PIB, longe, portanto, daqueles nos tempos de crise externa - passou a ser coberto, então, por investimentos, cujo repatriamento depende da própria saúde da economia brasileira e da maturação dos empreendimentos. No médio prazo, as reservas cambiais acumuladas no Banco Central, de cerca de US$250 bilhões, são uma garantia de que o Brasil pode saldar seus compromissos sem dificuldade. E, a mais longo prazo, a economia brasileira estará apta a gerar receitas que equilibrem suas contas correntes (seja, principalmente, pelo crescimento das exportações, seja pelo retorno de capitais que empresas brasileiras vêm investindo no exterior). Embora, aqui, deva ser feito o dever de casa da redução do Custo Brasil: impostos, infraestrutura, burocracia, etc.

Mas o quadro tranquiliza os mercados. Se, em determinado momento, o desequilíbrio ultrapassar os limites de segurança, e as fontes de financiamento se fecharem, o câmbio flutuante se encarregará de promover um ajuste nas contas externas, levando as exportações a ficarem mais baratas e as importações, mais caras. É claro que esse é o tipo de ajuste que se deve procurar evitar, por seu impacto negativo nas taxas de crescimento e na inflação. É mais um motivo para que a política econômica fortaleça os fundamentos que ajudam o Brasil a ser uma boa opção para investidores e financiadores.