Título: Governo iraniano tentou abafar caso Neda
Autor:
Fonte: O Globo, 02/08/2010, O Mundo, p. 21
Agentes queriam forçar professora a se passar por jovem morta durante protestos
NEDA, no alto, a jovem assassinada. E Zahra, que teve a sua vida destruída
FRANKFURT. Zahra Soltani, que todos chamam de Neda, nunca esquecerá o dia em que viu sua própria morte na TV, e com a foto que havia postado na sua página no Facebook:
¿ Disseram que eu tinha morrido nos protestos contra as eleições presidenciais.
Na verdade, era outra iraniana muito parecida: Neda Agha-Soltan, baleada numa manifestação em Teerã, em junho de 2009. Sua morte foi gravada em vídeo e divulgada na internet, tornando-se um símbolo da luta contra a repressão do governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad.
Logo Zahra se viu envolvida nos esforços do governo iraniano para acabar com qualquer acusação de que suas forças de segurança haviam participado do tiroteio no qual Neda morreu. Agentes pressionaram e ameaçaram Zahra para que se apresentasse em público, mostrando que estava viva.
Zahra, de 33 anos, era professora de Literatura Inglesa na Universidade Islâmica Azad e não tinha atividade na política. Na época, se preparava para uma conferência na Grécia. Poucos dias depois do episódio, fugiu do Irã e hoje vive como asilada perto de Frankfurt, na Alemanha.
¿ Nunca planejei sair do meu país, mas fui forçada ¿ disse Zahra, que ainda teme represálias por parte do serviço de inteligência.
A reviravolta na vida Zahra começou em 20 de junho, quando um vídeo no YouTube mostrou uma jovem de cabelos escuros baleada num protesto. Quando ela estava morrendo, um homem gritou o nome ¿Neda¿. Então, jornalistas em todo o mundo tentaram descobrir quem era a vítima, identificada como Neda Agha-Soltan ou Neda Soltan, estudante de 26 anos na mesma universidade de Zahra. Alguém achou o perfil de Zahra Soltani no Facebook como Neda Soltani e copiou a foto, que logo estava nos jornais, TVs e sites:
¿ Fiquei surpresa quando abri o meu email em 21 de junho e vi que mais de 60 pessoas no mundo me adicionaram como amiga.
E este número continuou crescendo, até que ela viu a sua foto na TV como vítima das forças de segurança do Irã. Ela e seus amigos tentaram informar o erro aos meios de comunicação, mas não adiantou. Em 24 de junho, o serviço de inteligência do Irã procurou Zahra. Em pânico, ela contactou a Anistia Internacional, em Londres. Então agentes do governo armados a levaram de sua casa para ser interrogada e pediram para dizer diante de uma câmera que estava viva, que a embaixada grega em Teerã havia liberado a sua foto para a mídia e a história era um engano:
¿ Eles queriam me usar, para mostrar ao mundo que tudo era mentira. E que culpasse conspiradores do Ocidente pelo episódio.
Há uma longa prática de autoridades iranianas coagirem pessoas a fazerem confissões filmadas ou declarações, que às vezes são divulgadas na TV ou mantidas em arquivo como forma de pressão, explicou Ann Harrison, da Anistia Internacional. Em 1º de julho, o serviço de inteligência confrontou Zahra a respeito de seus telefonemas para países ocidentais, meios de comunicação e amigos, e ela foi acusada de espionagem. No dia seguinte, fugiu.
¿ Eu tinha uma boa vida antes. (Do New York Times)