Título: Progressos a conta-gotas
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 03/08/2010, O Mundo, p. 24

Com recursos mal aproveitados, faltam energia e infraestrutura

BAGDÁ. Acompanhada de policiais, cabelos cobertos por um lenço de contas, Ikbal Ali, uma burocrata, rapidamente descobriu o que procurava no auge do calor do verão: ladrões de electricidade. Seis cabos pretos esticados de um poste chegavam a lojas de autopeças, subtraindo ainda mais as poucas horas de energia que a rede iraquiana proporciona.

¿ Leve-os todos para baixo ¿ ordenou Ikbal, mandando um funcionário desfazer as conexões.

Um proprietário de loja, Haitham Farhan, respondeu ironicamente, usando palavras proferidas em todo o Iraque como uma maldição: Ma fii kahraba (¿Não há eletricidade¿).

Desde o início da guerra, há sete anos, o estado da rede de energia elétrica tem sido uma das maiores referências do progresso do Iraque e do esforço americano para transformar uma ditadura em democracia. Apesar disso, a Operação Liberdade Iraquiana termina este mês, e o governo ainda se esforça para oferecer os serviços mais básicos, deixando evidente um legado misto dos Estados Unidos, em meio ao qual os iraquianos deverão governar por si mesmos ¿ para melhor e para pior.

O Iraque tem eleições, um exército operacional ¿ ainda que imperfeito ¿ e uma indústria de petróleo à beira de um boom potencial. No entanto, a capital, Bagdá, teve cinco horas de electricidade por dia em julho. A crônica escassez de energia é resultado de inúmeros fatores, como a guerra, a seca e a corrupção, mas reflete um governo disfuncional ¿ que tem gerado descontentamento e contestação, incluindo protestos.

¿ A democracia não nos trouxe nada ¿ reclama Farhan em sua loja, agora às escuras, para logo depois se corrigir: ¿ A democracia nos trouxe uma lata de Coca-Cola e uma cerveja.

As ruas estão cheias de lixo, a água, contaminada, os hospitais são precários e com frequência inseguros, prédios bombardeados pelos americanos em 2003 ou por insurgentes continuam em ruínas. O que está claro é que as expectativas dos iraquianos de um suprimento confiável de eletricidade e outros serviços, como as expectativas pela democracia, excederam até agora a capacidade dos americanos ou dos políticos iraquianos de cumpri-las.

Um quarto dos projetos de reconstrução inconclusos

A maioria dos geradores é operada privadamente, e o custo ¿ de US$7 por ampère ¿ é alto demais para que iraquianos comuns possam usar mais que uma lâmpada e um aparelho de TV. Os EUA gastaram US$5 bilhões só em projetos elétricos ¿ quase 10% dos US$53 bilhões destinados à reconstrução. Os recursos surtiram algum efeito, mas também houve ineficiência e corrupção, como em projetos para reconstruir escolas, sistemas de água e esgotos, estradas e portos.

O inspetor-geral especial para a reconstrução do Iraque, Stuart Bowen Jr., disse que um quarto dos 54 projetos de reconstrução não foi concluído ou sequer realizado pelos iraquianos. Os EUA estão liquidando projetos, deixando alguns inacabados e outros já em ruínas nas mãos do governo nacional e dos regionais, que até agora parecem incapazes de mantê-los e operá-los adequadamente.

A democracia, a flexibilização do isolamento do país e a melhora da segurança criaram novas condições e exigências que o primeiro-ministro, Nuri al-Maliki, tem sido incapaz de resolver. A rede elétrica continua a ser uma colcha de retalhos de usinas novas e antigas, complementada com soluções improvisadas e inadequadas.

O Iraque hoje importa 700 megawatts do Irã. Quando as temperaturas subiram este verão (do Hemisfério Norte), o governo pagou por dois navios geradores de energia da Turquia, que ancoraram perto de Basra, uma das cidades mais afetadas, num custo de centenas de milhares de dólares.

Houve uma campanha contra furtos ¿ que funcionários dizem ter resultado em centenas de quilômetros de cabos removidos ¿- e protestos públicos. Em Basra, em junho, duas pessoas morreram. Al-Maliki afastou o ministro da Energia e ordenou cortes em enclaves privilegiados. O premier tem pedido paciência ¿ que claramente se esgota, sobretudo diante da sua incapacidade de formar um governo cinco meses após a eleição.

A questão é saber se os eleitores podem forçar os líderes a agirem ¿ e se apenas os serviços vão piorar quando os EUA se retirarem. Nem todos os iraquianos estão convencidos. Mesmo alguns altos funcionários têm dúvidas sobre a governabilidade do país.

¿ Isso é culpa dos americanos ¿ afirmou o vice-ministro da Energia, Raad al-Haras. ¿ Puseram em prática uma democracia em grande escala após o regime (de Saddam Hussein). Passaram de zero a 100%. A democracia tem de ocorrer passo a passo. Agora se vê o resultado.