Título: Candidatos têm de explicar o como fazer
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Fonte: O Globo, 07/08/2010, Opinião, p. 6
Antes de colocar no ar o debate, a TV Bandeirantes mostrou uma colagem de cenas de históricos enfrentamentos, em que apareceram conhecidos personagens digladiando-se em disputas nacionais ou pelo governo de São Paulo. Sucederam-se cenas do histrionismo teatral de um Jânio Quadros suando em bicas em estudado gestual diante de um irritado Franco Montoro; passagens da ironia característica de Mário Covas num dos seus choques com o indefectível Paulo Maluf, sem faltar a versão metalúrgica do ainda mal-humorado Luiz Inácio Lula da Silva, de barba cerrada, rosto fechado e roupa esporte, persona substituída pelo "Lulinha paz e amor" de 2002, moldado pelo cinzel marqueteiro de Duda Mendonça. Era uma época de debates com regulamentos mais liberais e de conflitos mais acirrados ideológicos e/ou pessoais entre políticos
Em seguida, viria o debate entre Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio. Quanta diferença... Hoje, os debates, por exigência dos candidatos, são mais amarrados, evitam o máximo possível confrontos pessoais. Mas continuam a ser espaço privilegiado para a exposição de ideias e definição de divergências. Em certa medida, por praticamente inexistir a possibilidade de um gesto inesperado, um xeque-mate ao adversário, os debates aumentaram o desafio aos políticos: eles precisam conquistar o eleitorado mais na base da argumentação, da proposta objetiva. É visto por este ângulo que o morno debate da noite de quinta, o primeiro da campanha patrocinado por uma emissora em rede nacional - virão ainda os da RedeTV!, SBT, Record e Globo - deixou espaços em branco ainda a serem preenchidos. Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, outro dissidente do PT na bancada, ao lado de Marina Silva (PV), cumpriu o papel que já foi de Lula: contra "tudo que aí está", a favor de uma ordem "igualitária", defensor da invasão de propriedades, desapropriação de terras etc. Virou o porta-voz de correntes revolucionárias, minoritárias na sociedade, e assim ajudou Dilma a desbastar um pouco a imagem de radical. Pelo menos no caso do candidato do PSOL, deduz-se qual o caminho para a execução de sua proposta de governo. O mesmo não acontece com Dilma e Serra, para ficar nos dois principais candidatos.
De um lado, há a bandeira continuísta de Dilma Rousseff, em busca de encarnar o mentor Lula e usufruir de parte da alta popularidade dele. De outro, o ex-governador de São Paulo, experiente homem público, ao contrário da adversária, e que pretende vencer no confronto de currículos. Mas, pelo menos ontem, faltou explicar como executar as propostas de manter a estabilidade econômica, crescer mais, de forma estável, e ainda avançar nas políticas sociais. Tudo isso com o Orçamento estrangulado por gastos fixos em custeio nas alturas, e numa conjuntura mundial muito diferente da que permitiu a Lula surfar com êxito uma nunca vista onda de expansão sincronizada, em que o salto chinês foi a grande mola de propulsão das exportações brasileiras e mesmo mundiais.
Dilma Rousseff fez profissão de fé de respeito aos mercados na questão dos juros, ao dizer não acreditar no corte das taxas "de forma artificial". É um avanço. O candidato tucano contornou a questão, mas apontou para vulnerabilidades conhecidas do lulismo: aparelhamento, pouco investimento em infraestrutura. Mas ficaram em dívida, sem explicar como conseguirão cumprir as promessas.