Título: Dado, o menino que espera tirar a sorte grande
Autor: Lins, Letícia
Fonte: O Globo, 07/08/2010, O País, p. 16

Criança que Marina Silva conheceu numa comunidade de Recife foi homenageado por ela com um poema durante o debate

O PEQUENO Dado, em casa com a mãe e um irmão, após a fama repentina: ¿Gostei de tia Marina. Ela quer ser presidente¿

RECIFE. Edvaldo Antônio Bezerra Siqueira era mais um dos tantos ¿dados jogados¿, daqueles que se vê nas ruas, pedindo esmolas em qualquer metrópole do Brasil. Citado pela candidata do PV à Presidência, Marina Silva, no debate de quinta-feira, Dado, de 5 anos, ¿ a quem ela dedicou um poema ¿ poderia ser um menino triste. O pai morreu queimado, o padrasto está preso e a mãe já roubou, traficou e vivia nos semáforos, usando os filhos para pedir esmolas. Aos 4 anos, o menino dançava hip-hop para os irmãos passarem o chapéu. Era uma das principais fontes de sustento da família, que mora no bairro do Coque, um dos mais marginalizados da capital, onde em cada casa há uma história de perda, de gente que morreu. De tiro, de facada, pedrada, queimado...

Mas Dado é uma criança alegre, apesar da história de vida. Foi ele que no sábado passado emocionou a senadora, quando puxou um coro de crianças cantando ¿Coração de Estudante¿. Gostou da ¿tia Marina¿, uma ¿professora¿, que é ¿candidata a presidente¿, segundo ele disse ontem, sem ter dimensão da fama que ganhou da noite para o dia. A experiência levou Marina às lágrimas e prometeu voltar à comunidade, caso seja eleita ou não.

Dado é um dos cem alunos da Escola Popular de Direito Constitucional, onde 60 crianças aprendem direitos e deveres. A escola é informal. Funciona numa sala precária, com paredes sem reboco, telhado de zinco, numa rua onde falta esgoto, calçamento e, muitas vezes, água. A diretora, Jacineide da Silva, a Nega, analfabeta, já foi traficante e catadora de lixo. Perdeu um filho, dois irmãos e cinco maridos. Foi na casa dela que a escola começou.

A escola é seu orgulho. É onde os meninos aprendem o que é a Constituição, estudam as leis e descobrem a cidadania. Ela é mantida pela Associação de Defesa de Usuários de Plano de Saúde, com doação mensal de R$1,6 mil, segundo Renê Patriota, presidente da entidade. Foi ela quem fundou a escolinha, sensibilizada com tantas mortes jovens no Coque.

¿ A ideia da escola surgiu no cemitério, durante um enterro de jovens do Coque ¿ conta ela.

Dado já sabe dizer que ¿todos são iguais na lei¿. A mãe, Tacicleide, de 34 anos, morava na rua, quando lhe roubaram o terceiro filho enquanto ela dormia. Nunca mais achou o menino que, se estiver vivo, tem 12 anos. Dado é o penúltimo da prole de seis. O pai biológico era viciado em crack. Roubou uma carroça e foi queimado vivo enquanto dormia, em dezembro passado, aos 24 anos. O atual companheiro de Tacicleide, Wellington Lemos, de 26, está preso por roubo.

¿Havia um pequeno dado, jogado sobre a mesa/ Ali, nada era certeza, tudo era interrogar/ Mas para minha surpresa, na forma de um colosso./ Dado, meu pequeno Dado, jogado. Que Plínio, Dilma, Serra ou Marina ajudem a mudar a cena de tantos dados jogados¿, recitou a senadora no debate. Ontem, alunos e professores comemoravam o episódio. Os verdes levaram um telão para mostrar a homenagem.

¿ Jogado a gente sempre foi. A primeira vez que um presidente (sic) nos visita foi agora, com Marina ¿ afirmava Nega.

¿ Gostei de tia Marina. Ela é boa e engraçada. Ela quer ser presidente. Quando for presidente, vem visitar nós ¿ dizia Dado, considerado um dos mais espertos da sala, segundo a professora.

A escola mudou a cabeça da mãe de Dado. Hoje, ela ganha R$100 para cozinhar para os alunos e foi lá que tomou consciência de que o que fazia não era certo.

¿ Eu pensava que era assim. A família precisava comer. Ia fazer o quê?

Ela faz faxina quando aparece e perdeu o bolsa família, pois os filhos faltavam à escola. O que quer agora, diz, é uma vida diferente da que levou para os filhos.