Título: Cidade ouve novos sotaques
Autor:
Fonte: O Globo, 09/08/2010, O País, p. 12
Depois dos colonos sulistas, Lucas começa a receber migrantes de outras regiões, fenômeno que pode provocar segregação e choque entre culturas
FARTURA NAS SAFRAS de milho e soja alavancou a industrialização de Lucas
QUALIDADE DA MERENDA escolar premiou a cidade por cinco vezes consecutivas
Chico Otavio
Na Semana Farroupilha, data máxima do Rio Grande do Sul, muitos gaúchos saem de casa vestindo bombachas. Fiel à tradição, um jovem usou as calças largas, presas aos joelhos, há quatro anos, para ir à escola em Lucas do Rio Verde. Como estava no Mato Grosso, portanto longe do seu estado natal, foi barrado. A medida provocou confusão na cidade, a ponto de chegar à Câmara Municipal.
Essa crise, somada à revogação do feriado em Lucas no 20 de setembro, data da Guerra dos Farrapos, representou uma virada na curta história de 21 anos do município. Formada por sulistas em sua maioria, com pouco mais de 10% de moradores nascidos no local, a população luquense se defronta agora, diante do crescimento e da chegada de migrantes de outras regiões, com o desafio de ganhar identidade própria.
Após passar dois meses na cidade, ano passado, uma equipe do Núcleo de Estudos da População, da Unicamp, constatou que 63% dos entrevistados nasceram fora de Mato Grosso. São os colonos que desbravaram o lugar, compostos por paranaenses, gaúchos e catarinenses.
Mas a hegemonia dos sulistas perde a força. Com o avanço do processo de agroindustrialização, marcado pela chegada das fábricas de esmagamento de grãos e de abate de suínos e aves e uma usina de biodiesel, todas vinculadas à cultura de soja e milho, Lucas virou destino de migrantes nordestinos, principalmente maranhenses, e moradores de áreas mais pobres do Mato Grosso.
Se até então a referência cultural dos recatados colonos sulistas era o Centro de Tradições Gaúchas (CGT), a cidade passou a receber outros temperos. Na vila de operários da Sadia, que abateu em Lucas, só no ano passado, 31 milhões de cabeças de frango e 500 mil de suínos, já tremulam bandeiras de times nordestinos, e as músicas cantadas no centro católico sugerem um forró.
A segregação cultural impressiona o geógrafo Eduardo Marandola Júnior, um dos responsáveis pelo estudo da Unicamp. Para ele, o espírito pioneiro dos colonos que deixam tudo para trás, para reiniciar a vida, é forte na fronteira agrícola. Marandola teme que esta característica entre em conflito com o novo ciclo migratório, cujo destino não é mais o campo, mas o espaço urbano:
¿ Os nordestinos que chegam ocupam bairros novos. A segregação é clara. O lugar de cada um está definido, e isso é muito ruim. Cria uma lógica perversa, de exclusão do diferente. Não há uma disposição mútua de entrosamento.
O convívio destes grupos ocorre em lugares específicos, como nas arquibancadas do estádio municipal, onde moradores assistem, orgulhosos, aos jogos do Luverdense Esporte Clube, único time mato-grossense que disputa a Copa do Brasil. Fundado há seis anos, já foi campeão estadual e prepara-se para disputar a Série C do Brasileirão.
Na cidade cortada por ciclovias, onde o parque municipal (Buritis) mede cem hectares, as escolas públicas oferecem piscina aos alunos e o Fundo de Participação dos Municípios só responde por 11% da receita da prefeitura, o custo de vida também impressiona. Um apartamento de três quartos, em prédio com serviços, ou casa de 200 metros quadrados não custa menos de R$250 mil, preço de cidade grande.