Título: Colômbia e Venezuela restabelecem relações
Autor:
Fonte: O Globo, 11/08/2010, O Mundo, p. 33
Na fazenda em que viveu Bolívar, Santos e Chávez determinam a criação de comissões para analisar problemas entre os 2 países
Num encontro que teve como testemunha apenas o retrato de Simón Bolívar, os presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e da Venezuela, Hugo Chávez, concordaram em retomar as relações entre os dois países e levar adiante programas conjuntos, com base no diálogo e na via diplomática.
A reunião na cidade colombiana de Santa Marta foi precedida por um clima de otimismo e bom humor, embora a pauta do encontro incluísse temas espinhosos, como o combate à guerrilha dos dois lados da fronteira e o pagamento de uma dívida da Venezuela com exportadores colombianos estimada em US$ 800 milhões.
Segundo Santos, Chávez se comprometeu a não permitir a presença de guerrilheiros colombianos na Venezuela. Além disso, os dois presidentes concordaram com a formação de cinco comissões: sobre a dívida venezuelana; um acordo de complementação econômica; programa de investimento social na área da fronteira; obras conjuntas de infraestrutura na região; e a segurança na área limítrofe entre os dois países.
Normalização das relações interessa aos dois países Em contraste com os anos de rusgas entre Chávez e Álvaro Uribe, que até a semana passada ocupava a Presidência colombiana, o venezuelano chegou sorridente e foi recebido em Santa Marta com honras militares.
As bandeiras colombiana e venezuelana na janela do avião que levou Chávez já indicavam o clima que marcaria a reunião.
Empossado no sábado, Santos foi buscar o auxílio do herói da independência da América Espanhola, de quem Chávez é um admirador declarado, para apaziguar as relações com a Venezuela. O encontro aconteceu na fazenda onde Bolívar viveu seus últimos dias, hoje um museu em sua homenagem.
Aqui começaremos, com o coração à frente, a reconstruir o que desmoronou disse Chávez, que ainda felicitou Santos por seu aniversário. Decidimos restabelecer plenamente as relações diplomáticas e políticas, apesar da gravidade das coisas que ocorreram. Você disse que havia eliminado a palavra guerra de seu dicionário, pois eu também, presidente.
Antes do encontro, Santos dizia estar otimista e que desejava reconstruir as relações em bases firmes e duradouras.
Decidimos restabelecer as relações e lançar um roteiro para que todos os aspectos possam ser analisados. O presidente Chávez e eu concordamos na necessidade de colocar as necessidades de nosso povo acima de uma conveniência pessoal declarou Santos.
As relações entre os dois países, que já eram difíceis, pioraram no último ano, após um acordo para o uso de bases colombianas pelos Estados Unidos.
Como represália, a Venezuela suspendeu suas importações do vizinho. A crise culminou nos últimos dias do governo Uribe, que acusou a Venezuela de tolerar a presença de guerrilheiros colombianos em seu território. Chávez, então, cortou relações em 22 de julho.
Paralelamente ao encontro dos dois presidentes na Quinta de San Pedro Alejandrino hoje um museu dedicado a Bolívar os chanceleres dos dois países, a colombiana María Angela Holguín e o venezuelano Nicolás Maduro, discutiam o assunto, antes de uma reunião dos quatro com o secretário-geral da Unasul, Néstor Kirchner.
Mais cedo, María Angela havia revelado que um dos pontos a serem discutidos era a dívida venezuelana.
Mais do que o restabelecimento comercial, o que queremos buscar é uma decisão sobre o pagamento da dívida. Sabemos como foi prejudicial para os empresários que trabalham na Venezuela disse.
A tensão nas relações afetou as exportações colombianas para a Venezuela, que caíram de US$ 6 bilhões para US$ 1 bilhão. A normalização das relações também interessa a Chávez, pois diminuiria o desabastecimento que seu país sofre, ajudando os candidatos de seu partido nas eleições legislativas de setembro.