Título: Passos positivos em Bogotá
Autor:
Fonte: O Globo, 10/08/2010, Opinião, p. 6

A posse do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, pôs em ação a diplomacia sul-americana, num movimento positivo para buscar a normalização das relações do país com a Venezuela e o Equador. O ponto alto das gestões foi a concordância do presidente Hugo Chávez de viajar hoje a Bogotá para se reunir com Santos. Há apenas algumas semanas, Chávez tomara a iniciativa de romper as relações com a Colômbia, depois que o ex-presidente Alvaro Uribe acusou o vizinho de dar abrigo a guerrilheiros das Farc e do ELN, os dois mais antigos movimentos que lutam contra o governo constitucional colombiano.

O encontro foi costurado domingo em longa reunião entre a nova chanceler da Colômbia, Maria Ángela Holguín, e o chanceler da Venezuela, Nicolás Maduro, que compareceu à cerimônia de posse de Santos, num primeiro sinal de distensão. Em seu programa Alô, presidente, Chávez demonstrou compreender a situação ao afirmar que a guerrilha colombiana não tem futuro através das armas e deveria manifestar-se pela paz com demonstrações contundentes, por exemplo libertando todos os sequestrados.

Mas o clima de distensão não pode acobertar o que realmente importa: saber se de fato, como parece, a Venezuela dá abrigo às Farc. Naturalmente, a desejada reaproximação entre a Colômbia e a Venezuela só ocorrerá se Chávez der garantias inequívocas de que isto não acontece ou, se acontece, não mais acontecerá, e prová-lo. Ao contrário do que disse o presidente Lula, não é uma questão pessoal entre Uribe e o presidente venezuelano, mas de segurança para a América do Sul.

O presidente Juan Manuel Santos foi ministro da Defesa no governo Uribe e, portanto, executor da política de segurança do governo colombiano nos últimos oito anos, que primou pelo combate efetivo aos narcoguerrilheiros, sem as concessões destrambelhadas da administração anterior, que cedeu um pedaço do território colombiano às Farc, com péssimos resultados.

Sendo assim, parece não haver perigo de Santos cair no canto da sereia da guerrilha com seus acenos para negociar. Isto só poderá ocorrer sob condição de as Farc libertarem os reféns, se desarmarem e se converterem em partido político. Feito isso, poderiam participar, democraticamente, dos destinos do país e disputar eleições. Um passo relevante foi dado pelo novo governo colombiano também em relação ao Equador, país com o qual as relações estão abaladas desde 2008, quando as forças armadas colombianas atacaram um acampamento das Farc em território equatoriano, matando um dos líderes guerrilheiros. Respondendo a um convite levado pela chanceler Maria Ángela Holguín a Quito, o presidente Rafael Correa compareceu à posse de Santos, e ambos mantiveram uma reunião no mesmo dia.

O desarme desse foco de tensão é altamente desejável para a América do Sul. Entretanto, ainda há um longo caminho a percorrer.

Em grande parte, o sucesso dependerá de o presidente Chávez manter compromisso com a reaproximação. No momento, ele precisa muito disso devido à péssima situação econômica da Venezuela, que erode sua popularidade a um mês e meio das eleições parlamentares.

O tempo dirá se está sendo sincero.