Título: Com ficha nublada, mas caixa no azul
Autor: Fabrini, Fábio
Fonte: O Globo, 10/08/2010, O País, p. 15
Lei da Ficha Limpa não impediu doações para campanhas de candidatos que podem ter registro cassado
BRASÍLIA. Análise sobre as prestações de contas parciais ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que alguns dos principais políticos enquadrados na Lei da Ficha Limpa continuam recebendo doações e chegam a ter estruturas de campanha mais caras do que seus concorrentes. O baque financeiro, que não houve, era previsto até mesmo pelos partidos, que previam uma fuga de financiadores das campanhas mantidas sub judice por causa das novas regras de inelegibilidade.
Barrado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), o ex-governador Joaquim Roriz (PSC) é o que mais arrecadou entre os candidatos ao Palácio do Buriti. Declarou receitas de R$ 778 mil no primeiro mês de disputa, contra R$ 150 mil de Agnelo Queiroz (PT), que ficou com o segundo maior volume de recursos. A maior parte dos repasses (R$ 702,5 mil) veio de pessoas jurídicas e foi consumida em propaganda.
A produção de programas de rádio e TV consumiu R$ 425 mil, 66% do total de despesas (R$ 635 mil).
País afora, não faltam exemplos.
Candidato ao Senado pela Paraíba, o ex-governador Cássio Cunha Lima (PSDB) recebeu R$ 1,2 milhão no primeiro mês de disputa, mais do que todos os sete adversários juntos.
Ele também foi barrado pela Justiça Eleitoral, pois foi cassado por abuso de poder quando comandava o estado. Mas, do total, R$ 1 milhão veio de recursos recebidos pelo partido, e o restante foi pago diretamente por pessoas jurídicas.
Mesmo sob risco de não reverter a decisão na Justiça, o tucano já gastou R$ 2 milhões, só com programas de TV e rádio.
Em Alagoas, o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT), cujo registro foi indeferido pelo TRE devido a uma condenação por abuso de poder, é o segundo candidato ao governo mais endinheirado: recebeu R$ 1 milhão via comitê, atrás apenas de Teotônio Vilela (PSDB), com R$ 1,5 milhão.
No Pará, os dois candidatos ao Senado alvos de ações do Ministério Público Eleitoral (MPE) Jader Barbalho (PMDB) e Paulo Rocha (PT) também têm os cofres mais cheios: informaram receitas de R$ 215 mil e R$ 100 mil, respectivamente. Eles tiveram os registros liberados pelo TRE, mas a Procuradoria da República recorreu ao TSE. No Piauí, o senador Heráclito Fortes (DEM), que tenta a reeleição e também é questionado por causa da Ficha Limpa, lidera a arrecadação, com R$ 465,2 mil.
Atingido por mensalão, Costa Neto tem R$ 848 mil Entre os que pleiteiam a Câmara, o deputado federal Valdemar Costa Neto (PR), que renunciou por envolvimento com o escândalo do mensalão, em 2005, também tem campanha polpuda: conseguiu R$ 84,8 mil num mês. Para o diretor da ONG Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, os números expressam uma característica antiga dos doadores de campanha, que não estão preocupados em associar sua imagem a quem quer que seja: Eles doam àqueles que vão satisfazer seus interesses afirmou Abramo.