Título: Tecnologia permite ao BC intensificar combate à falsificação de dinheiro
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 08/08/2010, Economia, p. 34

Com ajuda da PF, notas confiscadas chegam a 20% do total em dez anos

BRASÍLIA. Às vésperas de entrar em circulação as novas cédulas do real, o Banco Central (BC), em parceria com a Polícia Federal (PF), está intensificando o combate à falsificação de dinheiro no país.

Para isso, as duas instituições implantaram um novo sistema tecnológico de investigação que consegue mapear as notas falsas por famílias mesmo tipo de papel e/ou tinta, por exemplo e que permite chegar aos infratores em cada região do país. Os primeiros resultados já começaram a surgir e, neste ano, já foram retiradas ou impedidas de entrar em circulação o equivalente a quase 20% do total das cédulas falsas confiscadas nos últimos dez anos.

Hoje, a falsificação de moeda já é o terceiro crime federal que mais gera inquéritos policiais, perdendo apenas para o estelionato e o contrabando.

Foi desenvolvida uma sistemática científica de avaliação das falsificações que permite que ela ocorra não só do ponto de vista de uma apreensão, de um repassador, mas de uma classe de falsificação.

Isso permite ao BC e à PF fazer uma investigação muito mais aprofundada e precisa sob o ponto de vista geográfico, tecnológico e gráfico resumiu o diretor de Administração do BC, Anthero Meirelles.

Laboratório do BC no Rio é o mais bem equipado Os investimentos do BC nessa nova tecnologia somaram R$ 1,3 milhão e envolveram a compra de suprimentos e máquinas para identificar notas falsas e o treinamento de especialistas.

Cada uma das dez unidades da autoridade monetária espalhadas no país têm agora laboratórios com esse objetivo. O do Rio é o mais bem equipado.

O diretor do BC explica que uma das novas técnicas permite o reconhecimento de uma caligrafia falsa não só por seu formato, mas também pela pressão feita sobre o papel, qual o tipo de máquina e de tinta usadas.

Esse método vale para qualquer cédula, inclusive as novas.

As de R$ 50 e R$ 100 comecem a circular em novembro, e as demais a partir de 2012. As cédulas atuais continuarão valendo por tempo indeterminado.

Todo momento de troca de moeda é de fragilidade, por isso precisamos estar bem preparados afirmou Meirelles.

O diretor-executivo da PF, Luiz Pontel de Souza, explicou que, com essas informações, é possível identificar o local de origem das falsificações mesmo depois de as notas falsas estarem em circulação.

Só neste ano, conta Souza, a PF já prendeu quatro quadrilhas de grande porte que operavam em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, mas que despachavam as cédulas falsas para diversos outros estados, inclusive o Rio. Ao todo, foram apreendidas quase 63 mil notas de R$ 10, R$ 20, R$ 50 e R$ 100. Mas, pelo porte dos criminosos, a PF calcula que o potencial era de mais de 800 mil cédulas falsas. Esse volume representa quase 20% das 4,981 milhões de notas falsas tiradas de circulação na última década.

Outra vantagem da nova metodologia de combate a esse tipo de crime, cuja pena varia de três a 12 anos de reclusão, é a possibilidade de abrir apenas um grande inquérito policial, e não vários pequenos, como acontecia antes, quando ocorriam apreensões de menor porte e localizadas.

A falsificação do real foi estimulada pela estabilidade monetária desde a implantação do real, em 1994. Sobretudo nos anos 2000, a quantidade de notas falsas cresceu bastante, atingindo seu ápice em 2007, quando o BC tirou de circulação quase 667 mil delas. É o equivalente a 170 notas falsas por cada milhão de cédulas verdadeiras em circulação.

Em 2009, a relação de cédulas falsas por verdadeiras já tinha caído para 128, mas ainda em níveis preocupantes e muito acima do que acontece com o euro, cuja relação é de três cédulas falsas por milhão.

Há cerca de quatro anos, o BC apurou que um terço da população já havia tido contato com uma nota falsa de real, índice considerado muito elevado e que chamou a atenção da autoridade monetária.