Título: É sempre mais fácil condenar uma mulher
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 08/08/2010, O Mundo, p. 41
LONDRES. Soheila Vahdati ainda se lembra do dia em que pela primeira vez ouviu falar de apedrejamentos no Irã. Vivendo nos Estados Unidos, a iraniana é hoje uma das principais ativistas da ONG Stop Killing (Parem de Matar), que faz campanha contra a pena de morte no Irã. Soheila alerta para o que vê como uma politização exagerada das discussões.
É possível pensar em direitos humanos para as mulheres iranianas num momento como este?
SOHEILA VAHDATI: Enquanto o Estado for o principal criminoso, a batalha será impossível. Meu país vive um momento em que crimes de honra, por exemplo, estão em ascensão porque os direitos das mulheres não são protegidos. É o que se vê em casos como o do apedrejamento, em que é sempre muito mais fácil condenar uma mulher do que um homem.
No caso mais específico do apedrejamento, há apoio popular para a prática?
SOHEILA: Não, trata-se simplesmente de uma barbaridade que muitos muçulmanos não aprovam e que é usada apenas por figuras religiosas radicais. As pessoas, na verdade, ficam chocadas quando tomam conhecimento de casos de execuções, até porque pouca gente fica sabendo dos apedrejamentos. Essas execuções são realizadas de forma praticamente clandestina. Eu mesma demorei a acreditar quando me contaram sobre a ocorrência de apedrejamentos. Nunca os presenciei ou conheci alguém que os tivesse presenciado. Achei que era uma lenda urbana. E olha que eu sou originária de Mashhad, uma das cidades iranianas mais religiosas.
A pressão exercida pelo Ocidente não parece funcionar nesses casos para dissuadir as autoridades iranianas de levarem a cabo a execução da sentença, certo?
SOHEILA: É importante que a comunidade internacional condene o desrespeito aos direitos humanos, mas a mudança real terá de vir dos iranianos, a partir da própria indignação contra abusos. A pressão popular já teve resultado na comutação de sentenças de apedrejamento e espero que possa acontecer no caso de Sakineh ¿ ninguém saberia dela, por exemplo, se sua foto não tivesse sido divulgada pela família e por ativistas. Mas é fundamental que não se caia na tentação de politizar a oposição à pena de morte. Estamos falando de direitos humanos, não de insatisfação com o regime. (F.D.)