Título: Santos assume pedindo diálogo com vizinhos
Autor: Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 08/08/2010, O Mundo, p. 42
Novo presidente da Colômbia diz que reconstrução das relações diplomáticas com Venezuela e Equador é prioridade
Enviada especial
BOGOTÁ. Apesar de o novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, chegar à Casa de Nariño prometendo dar continuidade à política anticrime e lutar contra o déficit público e o desemprego, os milhares de colombianos que enfrentaram ontem uma incessante chuva fina para assistir à posse na Praça Simón Bolívar, no centro de Bogotá, sabem que o novo governo começa com os olhos voltados ao exterior. Logo ao receber a faixa, o presidente empossado foi enfático: agradeceu os esforços de mediação regional e afirmou que uma de suas prioridades é reconstruir as relações de Bogotá com os vizinhos Venezuela e Equador.
A porta do diálogo não está fechada a chave afirmou Santos. Queremos viver em paz com todos os nossos vizinhos.
Nós os respeitaremos para eles nos respeitem.
Entre líderes e autoridades de 70 países que compareceram à cerimônia, a mensagem tinha como destinatários, sobretudo, o presidente equatoriano, Rafael Correa, e o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, que foram a Bogotá num gesto de boa vontade a Santos.
Novo governo agradece, mas rejeita mediação do Brasil A nova ministra das Relações Exteriores da Colômbia, Maria Angela Holguín, disse estar disposta a conversar imediatamente dispensando ajuda externa, como a oferecida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Primeiro é preciso estabelecer o diálogo. Tenho uma reunião marcada com o chanceler Maduro, e então começaremos a construir o que pode ser um restabelecimento das relações.
Vamos fazer, em princípio, uma reunião direta, eu e ele. Depois veremos se pedimos algum tipo de colaboração a outros países declarou Holguín.
O chanceler venezuelano desembarcou em Bogotá afirmando levar uma mensagem de amor e solidariedade do presidente Hugo Chávez. Mas, apesar da cordialidade, Maduro criticou a denúncia feita contra Chávez ao Tribunal Penal Internacional e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por, supostamente, abrigar e acobertar guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em seu território.
As demandas do advogado de Álvaro Uribe contra o presidente Hugo Chávez perante a corte são uma ação de ódio afirmou Nicolás Maduro, referindo-se ao agora expresidente colombiano.
Sem relações diplomáticas com Bogotá desde março de 2008 quando o Exército da Colômbia bombardeou um acampamento das Farc em seu território o Equador também sinalizou abertura à retomada do diálogo. Ao lado do presidente Rafael Correa, o ministro equatoriano da Defesa, Javier Ponce, destacou a necessidade de aprofundar a presença de tropas dos dois países ao longo dos 586 quilômetros da fronteira constantemente violados pela guerrilha colombiana.
Estamos muito, muito perto de restabelecer essa confiança com a Colômbia, e esta presença do presidente (Rafael) Correa faz com que estejamos nas últimas etapas desse processo garantiu o ministro.
O presidente Lula, que passou a sexta-feira com o venezuelano Hugo Chávez, em Caracas, manifestou otimismo quanto ao fim do impasse entre os dois países e se disse 100% confiante na reconciliação.
Em Bogotá, ele garantiu que Chávez está, inclusive, disposto a reunir-se com Santos.
Aqui na Colômbia, os sinais que a gente tem ouvido é que há disposição de voltar à normalidade. Os governantes têm que trabalhar para que haja normalidade e que volte a ser como sempre foi: uma fronteira de paz, de progresso e de desenvolvimento, porque é isso que a América do Sul precisa afirmou Lula, destacando que o primeiro encontro bilateral do novo presidente colombiano será com o Brasil,no próximo dia 1° .
Cristina Kirchner também tenta interceder em conflito Além de Lula, a presidente argentina, Cristina Kirchner, também ofereceu apoio para mediar a crise entre os vizinhos. Ao lado do marido e secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), Néstor Kirchner, ela disse estar disposta a investir todo o possível para que as coisas melhorem.
Acompanhamos o povo da Colômbia e o novo governo nesta nova etapa política que se inicia afirmou Cristina.
Sob aplausos, Uribe entregou a faixa a seu sucessor, pedindo o apoio do povo ao Exército. Após o juramento, ele prometeu uma Colômbia pacífica e harmoniosa e fez um aceno também às Farc, dispondo-se ao diálogo, desde que a guerrilha deponha as armas.