Título: Lenta reação da economia americana
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Fonte: O Globo, 12/08/2010, Opinião, p. 6
O Federal Reserve (banco central americano) manteve inalteradas suas taxas básicas de juros na última reunião do seu comitê de política monetária, decisão que se justifica diante das dificuldades que a maior economia do planeta continua a enfrentar. Essas taxas permanecem em patamar quase simbólico - entre zero e 0,25% ao ano - desde o agravamento da crise financeira internacional, em setembro de 2008, e devem se prolongar por mais tempo que a maioria dos especialistas financeiros presumia.
O risco de quebra de grandes bancos nos Estados Unidos parece hoje muito remoto, devido aos ajustes já praticados. No entanto, a situação dos bancos pequenos ainda é bem difícil (vários tiveram que fechar as portas).
Enquanto o sistema financeiro não voltar à normalidade por lá, o consumo doméstico permanecerá anêmico (para os padrões americanos), e o mercado imobiliário não conseguirá reagir. No lado do investimento, pelo qual o governo Obama esperava reativar a economia, os resultados também são tímidos. O programa federal mirou na recuperação da infraestrutura, mas as iniciativas dependem de uma ação conjunta com estados e municípios que têm responsabilidade direta sobre concessões dos serviços públicos.
Tal contrapartida não tem sido possível em face do quadro precário das finanças de grande parte desses estados e administrações municipais. Havia uma expectativa que a economia americana viesse a reagir, mesmo que lentamente, de modo que os estímulos federais pudessem ser retirados. O banco central considerou prudente manter as taxas básicas de juros em nível simbólico e assegurar liquidez ao sistema financeiro, vinculando a negociação de títulos públicos a papéis originários de hipotecas de imóveis retomados pelos bancos por falta de pagamento dos compradores. É possível que esses papéis encontrem interessados quando o mercado imobiliário recuperar o fôlego, o que, por sua vez, só ocorrerá com redução do desemprego e aumento da renda. Enquanto a economia americana não decola, a tendência é que o Federal Reserve não mude a forma de agir.
O forte crescimento da China e de outros países emergentes tem evitado que a economia mundial sinta mais duramente os efeitos negativos do que está acontecendo nos Estados Unidos e na União Europeia. Mas é provável que haja também uma redução do ritmo de crescimento na Ásia. A própria China já se prepara para isso e aqui no Brasil a taxa média de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) deve diminuir para a faixa de 4,5 a 5% no ano que vem, conforme as previsões do mercado financeiro, o que será um bom resultado, pois possibilitará ao país ganhar tempo para ampliar investimentos, especialmente em infraestrutura, que viabilizem um ciclo futuro de crescimento mais prolongado. Todavia, é preciso que os formuladores da política econômica fiquem atentos aos acontecimentos nos Estados Unidos e na Europa. A tendência da economia mundial continua na verdade, indefinida.