Título: No sertão, moto supera carro e quase aposenta jegues
Autor: Lins, Letícia
Fonte: O Globo, 15/08/2010, O País, p. 16

Em Pernambuco, animais nas estradas viram problema de trânsito; pesquisa mostra que índice de mortes por acidentes com motos é 11 vezes maior no interior do que na Região Metropolitana

PROPRIETÁRIO DE uma moto, que só usa nos fins de semana, Genival Freitas prefere passear de jegue com a família, mas tem que dividir espaço com a máquina nas estradas de Sertânia

EM SERRA Talhada, as motos já somam mais de 10 mil: a maior frota do sertão pernambucano

SERRA TALHADA, PE. Em vez de quatro patas, duas rodas. Já chamado de ¿volkswagen do sertanejo¿, o jumento começa a dividir a paisagem do semiárido com o colorido reluzente das motos que levantam a poeira no meio da caatinga. São tantas que já superam até o número de automóveis no agreste e nos sertões: 23.221 motocicletas foram licenciadas pelo Detran no primeiro semestre deste ano contra 12.502 carros naquelas regiões, a grande maioria destes concentrada em áreas urbanas.

Em Serra Talhada, a 418 quilômetros de Recife, elas já somam 10.739, para uma população de 85 mil habitantes. Isso sem falar nas menores, conhecidas por ¿cinquentinhas¿, que não exigem documentação dos órgãos oficiais. É a maior frota de motos do sertão pernambucano e a décima segunda do estado. No interior, elas vêm ocupando cada vez mais o espaço antes dominado pelos jegues. Resultado: sem serventia, os bichos começaram a se espalhar e viraram mais um problema de trânsito para o poder público. Eles penam pelas cidades e pelo asfalto das rodovias federais que cortam o semiárido. Não há estatísticas que comparem o antigo com o novo meio de transporte.

Mas uma contagem feita pelo GLOBO, ao longo dos 256 quilômetros que separam o município de São Caetano (ainda no agreste) ao de Serra Talhada (no sertão), mostrou a prevalência das motos: 65 no percurso, contra 31 jumentos conduzidos nos acostamentos pelos donos. Outros 42 foram observados soltos ao longo da BR-232, oferecendo risco para os motoristas.Três outros mortos por acidente foram encontrados no mesmo caminho.

O problema está se agravando tanto que nos quadros da prefeitura de Serra Talhada já consta um cargo curioso entre os servidores do poder público: o de laçador. E ele é tão necessário hoje que, no próximo concurso da prefeitura para o preenchimento de 400 vagas, há seis para laçadores, aqueles peões que laçam o gado com a corda. No caso de Serra Talhada, laçam os jumentos.

¿ A lei exige concurso, e vamos fazê-lo. Não sei os critérios que a empresa encarregada usará para contratar os laçadores, que são homens do mato, normalmente analfabetos ¿ diz o prefeito Carlos Evandro (PR), de Serra Talhada, onde as pessoas que não sabem ler na área rural ultrapassam 70% da população.

Natural da cidade, Evandro acompanhou a mudança no principal meio de transporte que, segundo ele, foi radical nos últimos cinco anos:

¿ Jegue nessa terra antes era ouro de lei. Hoje tem de monte ¿bamburrando¿ (circulando em quantidade) por aí e ninguém quer, porque todo mundo só anda de moto.

Por semana, 50 pessoas acidentadas

A prefeitura tem outro motivo para preocupação: o excesso de motos circulando na cidade, das quais cerca de mil pertencem a mototaxistas, muitos clandestinos. Chefe da 6ª Delegacia da 11ª Superintendência da PRF ¿ com jurisdição em dez municípios ¿ o inspetor João Ernande de Bezerra está querendo contratar 25 guardas de trânsito para disciplinar os motociclistas que circulam na cidade. Da mesma forma que fez com os 150 carroceiros (puxados a cavalo ou jumento) que trabalham no Centro, carregando frete. Todos cadastrados na prefeitura.

¿ As carroças e os jumentos dão menos trabalho. Ninguém morre em acidente de carroça. Mas desastres com motos são diários. A quantidade de motos explodiu, mas falta fiscalização. Quando começar a doer (com multas) nos bolsos, os motoqueiros vão se disciplinar ¿ diz Evandro.

Em Pernambuco, as motos licenciadas no Detran no 1º semestre somavam 46.073, das quais 29.665 circulam no interior. Das 29.665, 78,2% ficam no sertão e no agreste, onde o jumento era muito solicitado no passado pelos moradores das áreas rurais. No primeiro semestre de 2010, o número de motos no sertão era entre 17% (na área do São Francisco) e 20,8% (em outras áreas, como Sertão Central, Moxotó e Pajeú).

As motos se multiplicam na mesma proporção do despreparo para pilotá-las. Para o Coordenador de Gerência Regional de Saúde do Estado em Serra Talhada, Clóvis Alves de Carvalho, acidente de moto no sertão é um problema tão grave de saúde pública que deveria ser tratado como uma epidemia.

¿ No Hospital Regional temos uma média de 50 atendimentos de pessoas que sofreram acidentes de moto por semana. Por mês, fazemos, em média, 150 cirurgias traumatológicas provocadas por desastres com motocicletas ¿ afirma o gerente da Geres, que abrange dez municípios sertanejos, todas com o mesmo problema.

Segundo o diretor clínico do Hospital, Tales Couceiro, a média de mortos chega a dez por mês, todos com idades entre 18 e 30 anos. Ele disse que em um só fim de semana, teve casos graves como lesões na coluna e pessoas que ficaram paraplégicas.

¿ Cerca de 80% dos acidentados que recebemos no setor de traumatologia vêm de motos ¿ comenta. ¿ Tivemos casos de alguns que morreram na primeira viagem ¿ diz o médico.

No ano passado, a Secretaria de Saúde de Pernambuco publicou um estudo mostrando que em apenas nove anos, o risco de morrer em acidente de moto no estado ficou quatro vezes maior. Em 2010, a Fiocruz divulgou pesquisa mostrando que há cidades no interior onde o índice de mortes por motos (11,67 por cem mil) é onze vezes maior do que o registrado na Região Metropolitana. A Secretaria estadual computou indicadores ainda piores: em Camocim de São Félix, essa proporção chega a 37 pelo mesmo número de habitantes.

Em Serra Talhada, a sociedade civil criou o Movimento Vítimas da Imprudência, que reúne escolas, profissionais liberais, comerciantes e Ministério Público e pôs uma urna para receber denúncias sobre motociclistas imprudentes. Aos 40 anos, guiando motos desde os 14, a comerciante Maria Vaneide de Barros perdeu uma irmã em acidente com moto, e como pedestre já foi atropelada por uma. Usa o transporte inclusive para pegar o filho na escola:

¿ Não sinto segurança para andar na cidade. Precisamos da moto, mas precisamos fazer algo para que a realidade não se torne tão desastrosa.

Vítima de acidente de moto, o fazendeiro Homem Bom Magalhães, o Bonzinho Magalhães, fez um desabafo em versos: ¿o trânsito de Serra Talhada mutila mais que a guerra/ os motoqueiros malucos destroem a população da terra/ Não respeitam a vida de um cidadão comum/ Atropelam, matam, morrem e desmontam qualquer um¿.

Na semana passada, ele cruzou com o agricultor Genival Freitas da Silva, de 39 anos, morador do Sítio Salgado, no município de Sertânia, proprietário dos jumentos Moreno e Rodrigão. Com a família, ele ia com os animais para uma pescaria. Mas tem moto em casa, que comprou por R$2,5 mil à vista. Só usa no fim de semana, para ir à cidade:

¿ Gosto mais da máquina. Estou com a perna queimando, de tanto roçar no jegue. Mas moto quebra, gasta combustível e é cara. Para andar no mato, ainda prefeito o jegue.