Título: Ele Maluf era uma pessoa visionária
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Fonte: O Globo, 18/08/2010, O País, p. 16

Candidato do PP ao governo de São Paulo defende correligionário e ataca o preço dos pedágios nas rodovias paulistas

CELSO RUSSOMANNO: em sabatina no GLOBO, ele diz que, se eleito, comandará a pasta da Segurança

SÃO PAULO. Candidato do PP ao governo de São Paulo, com 11% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, o deputado Celso Russomanno nega que seja herdeiro do deputado e ex-governador Paulo Maluf, mas o elogia e diz que ele foi um visionário. Apresentador de programas populares de TV, com ênfase na defesa do consumidor, ele admite que Maluf ajuda na campanha eleitoral, e defende seu correligionário, alfinetando o governo tucano:

¿ Ele (Maluf) construiu as estradas, e o governo que está aí construiu os pedágios.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

O GLOBO: O senhor é herdeiro de um dos homens mais odiados da política brasileira, o deputado Paulo Maluf.

CELSO RUSSOMANNO: Tive 600 mil votos concorrendo com ele. Quero saber como sou herdeiro. Tenho estrela própria. Tenho Paulo Maluf em meu partido. A questão de ele ser odiado e ser amado, quem gosta, quem não gosta não gosta. O interior gosta muito dele, ele fez muito pelo interior. Ele até diz que construiu as estradas e o governo que está aí construiu os pedágios. Ele era uma pessoa visionária. Construiu a rodoviária de São Paulo, o aeroporto de Guarulhos e foi chamado de insano. Ele tem os seus méritos, pensava 20 anos à frente. Se o Paulo Maluf tem alguma coisa e a Justiça tem de apurar, é responsabilidade da Justiça. Acredito na Justiça. Depois de tramitado na Justiça, a gente vai discutir.

O GLOBO: A participação dele em sua campanha ajuda ou atrapalha?

RUSSOMANNO: Acho que ajuda. Ou vocês discutem que ele tem voto? Não só ajuda a minha como o PT. Quando foi candidato a cargo majoritário em São Paulo, (o PT) pediu apoio a ele e recebeu o apoio. E o PSDB também. O único que é crucificado pelo apoio do Maluf se chama Celso Russomanno.

O GLOBO: O senhor disse que reveria os contratos de concessão de rodovias em São Paulo em razão dos pedágios altos. Tem irregularidade nesses contratos?

RUSSOMANNO: Foi dado nesses contratos 20% de (taxa de) administração para as concessionárias, e os outros estados e a União dá (sic) 7%, 8%. Está errado, está irregular. Por que pagamos mais? Se a rodovia é pública, por que temos de pagar ICMS, imposto, sobre a rodovia? Se privatiza uma rodovia, é para dar qualidade de acesso. As estradas têm problema de segurança. E eu pergunto: alguém fiscaliza? O que vamos fazer? Rever os contratos.

O GLOBO:O senhor acha que há corrupção nesse meio?

RUSSOMANNO: Se todo mundo cede a rodovia por uma administração de 7% a 8%, e aqui em São Paulo as rodovias foram cedidas a 20%, tem alguma irregularidade. Tem de ser apurado e resolvido. O candidato do governo (o tucano Geraldo Alckmin) não disse que ia rever os contratos, mas disse que as próximas rodovias seriam na base de 7%, 8%. Então, ele assumiu que dá para administrar com isso, que não dá para ser com 20%.

O GLOBO: O senhor foi acusado, no debate da TV Bandeirantes, de ter-se aliado ao candidato Mercadante (PT). Num eventual segundo turno, o senhor se aliaria ao PT?

RUSSOMANNO: Vou discutir o segundo turno no segundo turno, mas quero o apoio de todos os partidos que não foram para o segundo turno. Neste momento, não existe acordo. O meu partido fez uma reunião da executiva nacional e decidiu apoiar Dilma e eu, na reunião, falei pelo Estado de São Paulo e disse que nós sairíamos independentes.

O GLOBO: O senhor diz que será o secretário de Segurança se for eleito governador. Como funcionaria isso?

RUSSOMANNO: Você já viu algum intermediário ou atravessador dar certo em alguma coisa na vida?

O GLOBO: Então o senhor vai acabar com o secretariado?

RUSSOMANNO: Não é isso. Mas temos um vício de origem na polícia, que é ter duas polícias, a Militar e a Civil. E quem entende de polícia é a polícia. Se colocar um delegado de polícia como secretário, o que acontece? A Polícia Militar não aceita. Se eu colocar um coronel da PM para gerir as polícias, a Civil não aceita. Esse vício precisa ser consertado em Brasília, com a polícia estadual. Tenho essa proposta no Congresso Nacional.

O GLOBO:Qual a solução?

RUSSOMANNO: Integração. Começa com a integração da comunicação. Outra coisa é que hoje a viatura não chega até a ocorrência por causa do Proar, um programa que afasta o policial que se envolveu no tiroteio. Qual o problema? Nenhum. Nenhum que ele vá fazer consulta com o psicólogo e que ele vá fazer aulas de direitos humanos, se não afastasse o policial do plantão. Ele trabalha 12 por 36 horas. Nas 36 horas de folga todo policial faz um bico.

O GLOBO: O crime organizado está dentro da cadeia de onde administra assaltos e outros crimes. Como resolver isso?

RUSSOMANNO: É a coisa mais fácil de resolver. O Canadá é exemplo disso. Existe equipamento que faz uma radiografia da pessoa que passa pela entrada da cadeia. Todo aquele que entra tem de passar por esse equipamento. Monitora essa passagem. Sabe o que acontece com um agente penitenciário quando ele pune um preso, chefe de uma facção? O diretor o chama e diz: ¿Você está louco, puniu o preso? Quer me derrubar, quer uma rebelião aqui dentro? Devolve o celular dele¿. Não se tem pulso nem para controlar a entrada de celular dentro da cadeia.

O GLOBO: Sobre educação, qual o seu plano?

RUSSOMANNO: Vou acabar com a progressão (continuada). Se funcionasse, os outros estados teriam adotado, o mundo teria adotado, as escolas particulares teriam adotado. Não funciona. Tenho uns 30 vídeos com depoimentos de mães com seus filhos na quinta, sexta série, que não sabem ler nem escrever. Quando viram que não deu certo, inventaram o bônus para o professor, que não reprova o aluno. O salário é tão pequeno que o bônus faz diferença.

O GLOBO: O senhor diz que a Nota Fiscal Paulista é enganosa. Vai acabar com ela?

RUSSOMANNO: Ela é enganosa e eu provo. Eu pego a nota fiscal para me devolver alguma coisa, algum serviço público que preste. Me aponte um que preste. Sobre a Nota Fiscal Paulista: 95% do que você compra no supermercado não dão nenhum benefício. Você já viu a quantidade de produtos que não dão benefícios? E o governo não avisa as pessoas. O governo não explica, vende uma coisa que não é verdadeira.

O GLOBO: O que é mais caro na sua campanha?

RUSSOMANNO: O mais caro seria a produção de televisão, mas isso eu tenho, eu tenho uma produtora. Então o custo é contratação de pessoal.

Participaram da sabatina: Ascanio Seleme, Germano Oliveira, Adauri Antunes Barbosa, Gilberto Scofield, Marcelle Ribeiro e Tatiana Farah

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