Título: Nova missão no Iraque
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 20/08/2010, O Mundo, p. 37

Tropas de combate voltam aos EUA; 50 mil ficam para apoio e treinamento

SOLDADOS AMERICANOS desmontam e despacham equipamento e bagagem antes de seguirem para o Kuwait, mas tropas envolvidas na transição ainda poderão combater

Parece até planejado: no mesmo dia em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, partiu em férias com a família, as últimas tropas de combate americanas no Iraque deixaram o país rumo ao lar. Enquanto o presidente, a primeira-dama Michelle e as filhas Sasha e Malia ¿ sem esquecer do cachorro Bo ¿ se preparavam para dez dias de descanso na ilha de Martha¿s Vineyard, em Massachusetts, os derradeiros soldados combatentes deixavam o Iraque em comboio, via Kuwait, assinalando de forma simbólica o fim de uma etapa da controversa guerra deflagrada em 2003 contra o regime de Saddam Hussein. Os 1.800 soldados da Quarta Brigada Stryker, da Segunda Divisão de Infantaria, foram os últimos a cruzar a fronteira, às 6h (0h de Brasília) de ontem, encerrando oficialmente a Operação Liberdade Iraquiana.

Rendendo-se às pressões do Congresso e da opinião pública pela falta de resultados convincentes na guerra do Afeganistão ¿ e com a popularidade em queda às vésperas das eleições legislativas de 2 de novembro ¿ Obama começou os dias de lazer com o cumprimento de uma emblemática promessa de campanha, fundamental para assegurar o apoio da ala liberal do Partido Democrata. O governo respeitou o prazo final anunciado: o fim da presença militar americana de combate no Iraque até o dia 31 deste mês.

Quando Obama assumiu a Presidência, 144 mil soldados americanos estavam em solo iraquiano. Não se pode afirmar, no entanto, que o conflito acabou, ou que os militares não incluídos na retirada silenciarão suas armas. Cerca de 50 mil homens permanecerão no Iraque depois de 31 de agosto atuando como ¿equipes de transição¿, para assegurar treinamento e apoio para que as forças iraquianas possam assumir o total controle da segurança no país. A repatriação completa das tropas americanas está prevista para o final de 2011.

Pentágono: apenas uma mudança

Ontem, o porta-voz do Pentágono, Geoff Morrell, recusou-se a dizer se as operações no Iraque ainda poderão ser chamadas de ¿guerra¿ com o fim das missões de combate. E advertiu: as tropas de transição poderão ser exigidas a atuar em situações de combate.

¿ Até onde sei, não penso que alguém tenha declarado o fim da guerra. Vamos ver o que acontecerá ¿ acautelou o porta-voz.

O Pentágono insiste que a missão militar não está acabando, mas apenas mudando, e que os EUA sabem que os enfrentamentos não cessarão em curto prazo. Para Washington, o segredo do sucesso da transição, segundo o jornal ¿The New York Times¿, seria um programa de ação civil, com o apoio de empresas privadas.

A partir de outubro de 2011, o Departamento de Estado americano assumirá o treinamento da polícia iraquiana através de empresas contratadas. Estima-se que o número de seguranças privados ¿ muitos deles ex-mercenários ¿ aumentará mais do que o dobro dos que estão hoje em atividade no Iraque, cerca de 7 mil agentes. Como empregados terceirizados, terão a tarefa de defender as bases instaladas no país, operar radares de alerta antiaéreo, procurar bombas em estradas, realizar voos de reconhecimento e, inclusive, participar de ações contra milícias rebeldes.

A tática é arriscada. Ex-enviado dos EUA ao Afeganistão, James Dobbins destaca a magnitude da operação a ser arquitetada:

¿ O Departamento de Estado jamais operou dessa forma, independente dos militares, em um ambiente tão ameaçador, em escala tão grande. É algo sem precedentes.

Além das questões de segurança em aberto, as tropas americanas deixam o Iraque em meio a um futuro político incerto. Mais de cinco meses após eleições, vencidas pelo ex-premier sunita Ayad Allawi, ainda não se conseguiu formar uma coalizão para governar o país. Suspeitas de fraude e a desconfiança trouxeram à tona, mais uma vez, o fantasma de confrontos sectários entre a maioria xiita, sunitas, curdos, cristãos e outras minorias.