Título: O senador que enfrentava banqueiros e generais
Autor: Lima, Maria; Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 20/08/2010, O País, p. 14

Se os loucos dominarão o mundo, não sei. Só sei que, na ditadura, muitos deles dominaram o MDB.

Tiveram, no entanto, seus papéis, importantes numa época em que a insanidade também era uma forma de luta. Citei aqui alguns deles, e me pedem agora para contar as histórias dos mais ilustres. Foram tantos, mas vou me concentrar hoje no homem que peitava banqueiros e generais, e que quase provocou o fechamento do Congresso.

O nome dele é Leite Chaves, eleito senador pelo Paraná na enchente eleitoral de 1974, a que derrotou a ditadura em 16 estados. Sobrevivente nordestino, migrou para Londrina. Foi preso em 64 e levado para Curitiba.

Fora da prisão, fez do combate à repressão sua bandeira de luta. Criou muita confusão no Congresso. Fez um discurso, em função da morte do jornalista Vladimir Herzog, exigindo a retirada do Exército dos centros de operações da repressão, acusando-o de violar os direitos humanos.

Não foi cassado, mas a ditadura jogou pesado, exigiu retratação do senador e submeteu o Congresso ao vexame de ter que censurar seu próprio Diário Oficial para que o discurso de Chaves não fosse publicado.

Já em pleno regime democrático que se instalava de forma ainda tímida, como procurador da Justiça militar, no governo Sarney, tentou reabrir vários casos considerados ainda tabus na época, como o do ex-deputado Rubens Paiva, e tentou convocar para depor no Superior Tribunal Militar o general golpista Sylvio Frota, demitido por Geisel. Não tivesse o ministro do Exército de Sarney, general Leônidas Pires Gonçalves, liderança junto à tropa, o primeiro governo civil pós-ditadura teria vivido seu mais duro teste, enfrentando uma crise militar.

Socialmente, Leite Chaves também criava confusões e embaraços. Um dos episódios mais famosos foi o seu constrangedor diálogo com o colega Magalhães Pinto no meio de uma festa em Brasília.

¿ Magalhães, ninguém tem coragem de te perguntar, mas eu tenho: é verdade que você deu um cheque de um milhão para fazer sexo com a atriz...

E o velho político mineiro, o homem do guarda-chuva, o poderoso e requintado banqueiro, ex-chanceler, depois de um silêncio de quase um minuto, mas que pareceu de uma hora, levantou a cabeça que abaixara por causa da pergunta e responde:

¿ Leite Chaves, vá pra puta que pariu!