Título: Serra diz que governo tenta cercear liberdade de expressão
Autor: Batista, Henrique Gomes; Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 20/08/2010, O País, p. 4

Dilma rebate ataques e defende conferências promovidas sobre o tema

Henrique Gomes Batista, José Meirelles Passos e Natanael Damasceno

O 8º Congresso Brasileiro de Jornais, que começou ontem, tinha o objetivo de reforçar o compromisso dos candidatos à Presidência com a liberdade de imprensa e a democracia. José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) assinaram documentos nesse sentido, mas o tucano utilizou o evento para acusar o atual governo e o PT de tentar cercear o direito à livre expressão. Dilma rebateu os ataques.

Segundo Serra, o grupo no poder em Brasília tenta reduzir as liberdades nacionais com três métodos distintos: a proposição de leis, em uma estratégia de "conferencismo"; a pressão econômica da publicidade oficial; e o patrulhamento ideológico.

- Nos últimos anos, têm havido tentativas em três modalidades no sentido de cercear essa liberdade de imprensa. A primeira usa os mesmos instrumentos da democracia, democracia entre aspas, se tenta fazer por via legal. É o caso da criação de conferências, o conferencismo, pagas com dinheiro público. Tivemos três delas: comunicação, direitos humanos e cultura. As três se voltaram, de fato, a um controle de nossa imprensa, cerceamento da liberdade de expressão, da liberdade de informação através do suposto controle da sociedade civil - afirmou Serra, no evento da Associação Nacional de Jornais (ANJ).

Ele questionou o público dessas conferências: segundo Serra, 15 mil a 20 mil pessoas devem ter participado, e isso "não representa o povo".

Serra afirmou que dessas conferências surgiram cerca de 600 projetos de lei que tramitam no Congresso e continuam como "ameaças". Ele lembrou que antes das conferências o PT defendia a criação do Conselho Nacional de Jornalismo, que teria poder até para cassar jornalistas - o que Serra considera um absurdo, pois a categoria trata de opinião:

- O próprio PT inclui essas questões em seu programa de governo. Ele foi até registrado na Justiça Eleitoral e não foi por engano. Foi rubricado pela candidata. Ela pode até não ter lido no detalhe, mas significava um endosso.

"É função do governante ouvir gente do povo", diz Dilma

Serra disse ainda que, por meio da publicidade oficial, o governo pressiona veículos de comunicação, sobretudo menores. E, segundo Serra, os petistas fazem patrulhamento ideológico contra jornalistas:

-- Para as pessoas que exercem a patrulha, que indiretamente são comandadas pelo PT, no caso, o que importa são versões, não fatos, e isso, de certo modo, limita a liberdade de imprensa. Boa parte dessa estratégia não deixa de ser alimentada por recursos públicos. Alguns golpes sujos são mantidos, inclusive, com recursos dessa TV Brasil, feita não para ter audiência, mas para criar emprego na área de jornalismo e servir como instrumento de poder de matéria de expressão de informação para um partido, basicamente. Estou falando sem eufemismos.

Dilma evitou comentar o endurecimento do discurso do oponente, dizendo não querer baixar o nível da discussão, mas criticou a tentativa de Serra, que considerou "patética", de ligar seu nome ao de Lula:

-- Ele (Serra) fez oposição ao presidente Lula durante todo o governo.

Dilma também defendeu as conferências como um canal para que os governantes ouçam a opinião popular:

- Acho que a gente tem que aguentar todas as críticas. É função do governante ser capaz de escutar gente do povo conferindo se tudo está nos conformes. Nós não tememos os movimentos sociais. Muitas vezes não adotamos as reivindicações, mas jamais vamos deixar de escutar.

Serra reconheceu que nem sempre gosta de tudo que é divulgado nos veículos de comunicação. Entretanto, disse que tem uma postura respeitosa com os jornalistas.

Logo após seu discurso de mais de 20 minutos sobre o tema, o candidato tucano se recusou a responder a três perguntas dos jornalistas que cobriam o evento. As questões tratavam das acusações feitas pelo candidato em seu discurso e de críticas de aliados. Serra chegou a ensaiar que sairia do evento sem responder aos questionamentos dos jornalistas, mas voltou quando ouviu que a pergunta seria sobre a importância do congresso da ANJ.