Título: Discutindo a paz... de novo
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 21/08/2010, O Mundo, p. 40
EUA anunciam a retomada de diálogo entre israelenses e palestinos, a quinta vez em 10 anos
OBAMA DEIXA livraria ao lado das filhas em Martha¿s Vineyard, onde passa férias: governo americano dá prazo de um ano para que negociações avancem
JUDEU ULTRAORTODOXO caminha na Cidade Velha de Jerusalém: status da capital também será discutido
Suspensas há 20 meses, as negociações diretas entre israelenses e palestinos sobre o processo de paz na região deverão ser retomadas no dia 2 de setembro, em Washington. Segundo a agenda proposta, durante o dia o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, terá encontros bilaterais com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, e o rei Abdullah, da Jordânia. À noite, os líderes sentarão frente a frente em um jantar oferecido pelo anfitrião ¿ e com mais um convidado à mesa, o ex-primeiro ministro britânico e também representante do Quarteto para o Oriente Médio, Tony Blair. No dia seguinte, a conversa será prolongada em um almoço mediado pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Desde 2000, é a quinta vez que os dois lados tentam chegar à paz em negociações diretas
A meta estabelecida é chegar a um acordo sobre os principais temas de dissensão: as fronteiras definitivas de um Estado palestino, o futuro dos assentamentos judeus na Cisjordânia, o estatuto dos refugiados palestinos e o futuro da disputada Jerusalém, tudo em um ano de negociações. Em junho, o Quarteto ¿ formado por EUA, Organização das Nações Unidas (ONU), Rússia e União Europeia ¿ havia fixado um prazo maior, de 24 meses, para a costura de um consenso.
Num comunicado divulgado ontem, o Quarteto defende um acordo que ¿encerre a ocupação iniciada em 1967 e resulte no surgimento de um Estado palestino independente, democrático e viável, convivendo em paz e segurança com Israel e seus vizinhos¿.
Hillary Clinton, que anunciou a retomada dos diálogos em Washington, apelou para negociações ¿sem pré-condições¿, caracterizadas pela boa fé e por comprometimento.
¿ Houve dificuldades no passado, haverá dificuldades pela frente. Sem dúvida, enfrentaremos mais obstáculos. Os inimigos da paz continuarão tentando nos derrotar e prejudicar as conversações. Mas peço que as partes perseverem para continuar avançando mesmo em meio às dificuldades, e para continuar trabalhando para alcançar uma justa e duradoura paz na região ¿ disse Hillary, em um pronunciamento no Departamento de Estado, ao lado do enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, George Mitchell.
Alerta a Israel sobre assentamentos
Em Jerusalém, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, aceitou na mesma hora o convite americano. ¿Conseguir a paz é um desafio difícil, mas possível. Nós vamos às negociações com vontade verdadeira de chegar a um acordo de paz entre os dois povos, resguardando os interesses da segurança nacional de Israel¿, disse Netanyahu por meio de um comunicado.
O comitê executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) também concordou em participar do encontro. O anúncio foi feito por Yasser Abed Rabbo, um dos dirigentes da OLP, após uma reunião de emergência convocada ontem na capital administrativa, Ramallah.
¿ Mas Israel pode colocar em risco as negociações se não parar completamente a ampliação de colônias judaicas em territórios reivindicados pelos palestinos ¿ advertiu.
Nos últimos meses, George Mitchell vinha intensificando as chamadas ¿conversas de proximidade¿, indiretas com os principais envolvidos na tentativa de articular as condições mínimas para a retomada do diálogo. As negociações diretas foram interrompidas em dezembro de 2008, com a eclosão da ofensiva militar israelense à Faixa de Gaza. Na sequência, a ANP se recusou a renegociar enquanto Israel não suspendesse a construção de assentamentos na Cisjordânia (Israel concordou penas com uma moratória de dez meses, que vence em 26 de setembro) e aceitasse um Estado palestino com as fronteiras anteriores à guerra de 1967. Em março último, o anúncio da construção de 1,6 mil novas casas em Jerusalém Oriental, feito durante a visita do vice-presidente americano, Joe Biden, estremeceu as relações entre os EUA e Israel.
Ontem, fontes diplomáticas afirmaram que, em caso de fracasso dessa nova iniciativa de paz, os palestinos declarariam de forma unilateral seu Estado independente. Por outro lado, para confortar Israel e aplacar seus temores em relação à ameaça bélica iraniana, os EUA garantiram a Israel que o regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad não terá condições de produzir uma arma nuclear antes do prazo de um ano. Segundo Gary Samore, assessor da Casa Branca para assuntos nucleares, Teerã não teria como utilizar o urânio pouco enriquecido de que dispõe na fabricação de uma bomba atômica.
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