Título: E agora? Novidades à vista?
Autor: Freire, Américo
Fonte: O Globo, 24/08/2010, O País, p. 12

Análise

No último dia 17 de agosto, teve início o horário eleitoral gratuito. Dias depois, já havia pessoas ao meu redor dizendo: Já não aguento mais esta eleição! Estou doido para isso terminar o quanto antes! Todos os que acompanham a propaganda gratuita estão acostumados a ouvir esse tipo de queixa, que se repete a cada dois anos. O mais interessante nisso tudo é que as queixas costumam aumentar na proporção direta em que sobe a audiência do programa, seja na televisão, seja no rádio. Ao que parece, o eleitor gosta de parecer alheio à política dos políticos, mas, vira e mexe, está ele lá conferindo o que eles estão dizendo.

Esse fastio com as eleições não é coisa nossa, haja vista o absenteísmo que, nas últimas décadas, tem marcado as democracias ocidentais.

Para alguns analistas, a fuga do eleitor pode ser associada, entre outras razões, ao abusivo uso do marketing pelos partidos e candidatos, fenômeno que leva os pretendentes aos cargos públicos a seguir o batido script de dizer tão somente o que os eleitores querem ouvir.

No Brasil, ainda que o comparecimento do eleitorado tenha permanecido alto dado que se mantém o voto obrigatório e ainda há um razoável interesse , chama atenção a redução do número de eleitores entre 16 e 18 anos. Trata-se de um fenômeno a ser mais bem examinado pelos especialistas em comportamento eleitoral como também por aqueles que estão à caça do eleitor. Para a democracia brasileira, a desconfiança dos jovens não é bom augúrio...

Em 2010, teremos a quinta eleição consecutiva em que a disputa eleitoral se concentra fundamentalmente entre candidatos do PT e do PSDB.

Serra e Dilma são nomes que estão na cena política há um bom tempo; o primeiro é figura carimbada de muitos pleitos eleitorais desde os anos 80, e a segunda, mesmo sendo novata em eleições, foi praticamente uma primeiraministra no segundo governo Lula e esteve na mídia por quatro anos ininterruptos.

A despeito das rusgas pessoais e disputas políticoeleitorais, PT e PSDB apresentam, hoje em dia, programas e projetos de poder muito semelhantes, na linha das socialdemocracias europeias, ainda que possa haver algumas importantes distinções de ênfase quanto à condução de políticas setoriais, particularmente no que diz respeito às áreas econômicas e sociais do governo.

Nesse quadro, a transferência de Marina Silva para o Partido Verde foi vendida como uma alternativa à polarização PT-PSDB. Não era para menos: Marina era um importante quadro do PT e transformara-se, por sua atuação como ministra do Meio Ambiente, em nome nacional e figura de projeção internacional.

Para o PV, a candidatura de Marina representa uma oportunidade de dar maior peso político ao partido, que até aqui tem atingido uma faixa muito estreita do eleitorado, além de apresentar uma baixa taxa de renovação de seus quadros de direção e de seus candidatos a cargos majoritários.

A candidata verde, depois de um início ainda morno, em que demorou a definir o tom de sua campanha, começa a parecer mais à vontade na nova situação de presidenciável, mostrando-se mais incisiva e mais clara em sua proposta de integrar diferentes temas e questões em torno de um modelo sustentável de desenvolvimento. Os números das pesquisas estão mostrando, porém, que, uma vez mais, a polarização deverá prevalecer. Mas, para o futuro próximo, não se pode descartar a possibilidade de que esteja a surgir uma via alternativa sob a liderança de Marina Silva. A conferir.

AMÉRICO FREIRE é historiador e professor do CPDOC/FGV.

A opinião expressa nesta coluna é de responsabilidade de seus autores e não necessariamente a da FGV.

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