Título: Conjuntura facilita decisão do Copom
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Fonte: O Globo, 29/08/2010, Opinião, p. 6

Em sua última reunião antes do primeiro turno das eleições gerais de outubro, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidirá esta semana sobre as taxas básicas de juros, e numa conjuntura favorável: tanto no cenário internacional, como na economia brasileira existem indicações claras que a inflação arrefeceu.

As previsões relativas a uma recuperação mais rápida dos países ricos se frustraram, e por aqui, pelo terceiro mês consecutivo, o IPCA índice de preços ao consumidor que é a referência das metas de inflação oscilou próximo de zero.

Dentro desse quadro, o próprio mercado financeiro, que prognosticara a necessidade de um aperto monetário, também sinalizado anteriormente pelo próprio Banco Central, já considera que esse processo deva ser interrompido, por prudência. Isso não teria nada a ver com a disputa eleito ral, mas sim com a conjuntura econômica.

O ritmo de expansão do crédito no país diminuiu significativamente em julho e continuou em declínio na primeira quinzena de agosto, segundo o BC. A redução foi mais acentuada no caso das empresas. É pouco provável que esses números sejam resultado de uma forte desaceleração da economia brasileira como um todo.

Embora a geração de empregos formais tenha perdido um pouco do vigor do início do ano, o desemprego está baixo (6,9%, o menor desde 2002), e a demanda por importações vem se mantendo em patamar característico de uma economia que continua crescendo.

Mas, se, nesse ambiente, a inflação não ameaça o cumprimento das metas oficiais, é razoável se esperar que o Banco Central reavalie o processo de aperto monetário.

As taxas de juros no Brasil se distanciaram dos patamares muito elevados que foram necessários no passado, mas permanecem bem acima da média internacional.

Portanto, a política monetária não deixou de ser restritiva, e nem o será até que a contribuição do lado fiscal se torne novamente mais efetiva para o combate à inflação.

O governo alavancou nos últimos anos programas sociais que fizeram os gastos públicos aumentarem intensamente, absorvendo todo o crescimento das receitas. Tal estratégia poderá até render frutos eleitorais no curto prazo, mas não pode ser mantida de maneira permanente, pois impedirá que a carga tributária no Brasil se torne menos asfixiante.

Ficará para o próximo governo, então, a tarefa de desatar este nó. Na verdade, o sacrifício fiscal que se almeja é factível do ponto de vista da administração fazendária, mas depende fundamentalmente de decisão do próprio presidente. O que está em jogo nem chega a ser uma contração dos gastos públicos, mas sim uma diminuição no ritmo de aumento dessas despesas (para algo ligeiramente abaixo da taxa média de evolução do PIB).

Enquanto não ocorre o ajuste na parte fiscal, não se pode esperar milagres da política monetária. A dosagem dos juros básicos na economia brasileira (10,75%) destoa do resto do mundo. Ainda assim, o BC conseguiu conduzir políticas restritivas sem deixar de reduzir as taxas quando isso foi possível. O resultado é que os juros nominais estão hoje entre as mais baixas da era do real.